O coração fica

Vou propor uma experiência: entrelace suas mãos. Agora aperte firme, e as deixe assim, por um momento, abraçadas. Fique assim por alguns minutos e, enquanto isso, vamos conversar. Eu sei que você nunca mais vai ver o Manoel, que a Pri está na China sem data para voltar. Eu sei que você acredita piamente que aquela pessoa foi o amor da sua vida, e esse mesmo amor se esvaiu. Também sei que você se culpa por isso, pelo que pode ter sido e não foi; você culpa seu orgulho, e também o fato de não ter escancarado seu peito e falado tudo que gostaria de ter dito.
Eu sei que o mundo grita aos sete ventos para você falar o que sente, que isso alivia a alma, e mesmo assim você não consegue ver o fim da boiada dessa linha de raciocínio. E então você se sente um perdedor solitário e orgulhoso, e fica aí pensando no que deveria ter sido, depois de se sentir abandonado pelo mundo. Eu sei que você sente que a vida esqueceu de você em prol de protagonistas os quais você nem conhece, e também já sei que você grita com ela às vezes, se perguntando porquê. Porque, Deus?
Porque você acreditou de novo, se deixou levar, quebrou a cara? Porque confiar, se abrir, ajudar, dar o melhor de si? Vamos, lembre das mãos, aperte mais um pouco.
As pessoas vão embora, elas precisam ir embora, todo mundo precisa. Você vai se abrir sem ser correspondido, você vai acreditar que achou alguém que não vai te abandonar e ainda assim ser abandonado. Às vezes as pessoas escolhem ir, outras vezes a vida leva. Há ainda os momentos em que a vida opta por nos levar das pessoas, e nada explica isso. Nós temos planos maiores, e tudo tem sua história natural.
Então, o que te resta é entender que o amor acaba, amizades terminam, pessoas vão, voltam, ficam e se vão de novo. Você vai se sentir abandonado a ponto de se enterrar na cama e ouvir a playlist mais fossa do mundo, e vão haver dias piores. E então, aperte mais um pouco as mãos.
Você vai ser ignorado, vai se sentir pisado. Em alguns momentos as coisas vão dar errado, e depois certo, e depois errado. Você vai botar mais fé nas coisas do que deveria. Vai engordar e vai emagrecer. Vai ter momentos de bem com seu cabelo e em certas horas vai querer raspá-lo. Você vai para Paris e esquecer de fazer alguma coisa que queria ter feito.
Um dia vai achar lindo as formigas juntinhas andando a Deus dará, e no dia seguinte vai odiar uma formiga pelo vergão na perna. Você vai amar a vida e também vai praguejá-la. Vai cantar sua música favorita até arranjar uma nova, porque a antiga não cabe mais, nem faz mais sentido.
Você vai dormir e vai acordar. Já sente suas mãos formigando? Já parou de senti-las? Então solte. Sinta como elas estão travadas, como elas travaram enquanto estavam juntas. Agora sinta como a circulação se recupera quando se soltam. Comece a sentir novamente, chega a doer essa recuperação, não? Mas ela volta, tá? Assim como a gente, ela volta a sentir, a mexer, a te ajudar a viver. Você não vai perder a mão, nem o braço, nem mais nada, assim que se lembrar: as coisas precisam se desprender para chegar a certos pontos.
Assim como quando você largou as mãos, as pessoas precisam viver outras coisas, elas se vão, se desprendem. Dói, dói um bocado, mas quando alguém te pedir liberdade, não hesite, deixe ir. Experimente a dor até parar de senti-la, a dor é necessária, bem como o amor. Grandes amores só são inesquecíveis quando não totalmente vividos e esgotados. Pois bem, deixe ir e vá também, você precisa se encontrar. Sua mão vai ficar bem, e você também.
Seu coração um dia vai parar de bater mas, por agora, ainda bate. Então faça jus a cada batimento, enquanto não falta nenhuma parte de você aí dentro.

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