Ame vezes três

(* Leia com a música 😉 )

Há alguns pedaços de ano aquela janela não era aberta. Nunca, nunquinha. Quando ela se abriu, você não estava mais ali, então eu me deitei e olhei para o teto. Não vou mentir que temi o sol forte, que iria me queimar com a dor do cotidiano e do que me aguardava lá fora. Mas eu já conseguia ver algo qualquer de diferente, algum sentido de estar ali deitada, olhando lá embaixo. E você não estava ali, mas eu sentia cada passo até a distância, de um modo sofrido, livre, bem sentido.
O vento estava forte, não sabia o quanto a janela aguentava, mas já não era fraca. Era forte. E eu estava deitada, sentindo o cobertor ruir com a força do vento em impacto com o ventilador. No momento, nada mais fazia sentido, então, eu sei. Sei que são nesses momentos em que qualquer coisa que se sente é bem vinda, e quando o ouvido não liga mais para a porta batendo ou os objetos ruindo contra a parede, em que a gente suplica para nossa cabeça, ame! Ame até cansar de amar, e quando sentir que o findável chega, ame vezes três.
Ame o vento que entra, ame a paz que ele ainda quando bravo te faz sentir. Ame quando pensa que o vento é brisa, ame quando está e quando não está, ame forte, grite para dentro o quanto ama cada metro quadrado de você. Ame, olhe lá para trás e enxergue a criança desprotegida, ame a ela também, mesmo descabelada, com os joelhos ralados, torta como for, ame.
Ame aquela época que deu tudo certo e também a que foi tudo errado. Não meça o erro, ame o que foi e o que é, ame todas as partes, grite para dentro, exija seu amor de volta, e então, ame vezes três.
Quero que ame forte o amor que não abandona, nunca, o amor que se vai e mesmo assim se prolonga a cada dia da vida. Eu sei que você continua amando, dentro de você. Ame o amor que te faz se jogar de um penhasco no colo de quem for, se destruir e renascer. Celebre o amor em que se dá as mãos e se joga em alto mar, solicite o amor mais nobre e o mais pobre, transforme o que é vazio em garrafa cheia, rache o vinho, ame com a mente, com a cabeça, com o coração, com os braços, olhos, com o corpo. Ame em todos os sentidos, ainda que rasteje até se esgotar, ame, e quando findar de amar, ame vezes três.
Se te pedir que compre a briga, se te pedir que olhe para fora, ou que se jogue do mais alto andar, pense até mil vezes, mas siga, não esqueça que a luz que entra nem sempre é a que queima. Então vá, que já tarda, brigue até que o último fósforo se acenda, ame com a brisa e com o fogo, pegue o primeiro ônibus a vista, fuja do incêndio, incendeie a si mesmo quando chegar, seja o sem destino que seu coração exige de você, até que chegue a algum ponto de sentido. Eu torço para que seu amor faça sentido, mas também torço para que seu orgulho seja pequeno a ponto de que você consiga assumir o tamanho de amor que tiver em você. E se ele te vencer, eu suplico, ame vezes três.
Ame ao som do melhor Ballet Russo que encontrar, ame de cima do telhado, tocando piano, brindando o champagne, no surrealismo bruto, ame as pinceladas sem sentido, ou o dadaísmo mais burro, mas ame. Ame cada instante que lhe for oferecido, e independentemente do que amar, ame com força. Ame vezes três.
Abrace a vida com a força de quem a vai perder no momento seguinte. Se perca por um bom motivo, se ache por algum melhor, o amor é assim, a gente se perde e se acha, a gente apaga e vive dez anos no automático, mas em algum momento uma janela se abre e te mostra que o mundo pode ser ensolarado como quiser e nublado como desejar, a luz não te atinge, ela ilumina. E quando souber disso, e quiser sentir isso todos os dias da sua vida, repita em voz alta: viva, largue para trás esse preconceitos nulos, viva como quiser, e ame. Ame a vida vezes três. Se multiplique até onde puder e não se coloque limites, viva com ânsia a ponto de sentir náuseas. Você precisa abrir a janela.
E quando morrer, ame a morte. E depois de se deitar, e depois do teto, e depois do cobertor, depois da morte, abra a janela, é o que eu te peço. Deixe o amor entrar, e me levar. Me leve vezes três.

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