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Tempo vendido

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Assisti há alguns meses o filme “O preço da amanhã”. O filme já é velho, de 2011, mas vou dar um resumo breve para situar a quem ainda não viu. Trata-se de uma época futura na qual a ciência descobriu uma forma para que as pessoas parem de envelhecer aos 25 anos, e, a partir de então, trabalham e lutam para conseguir, possivelmente, um merecido tempo de vida. Os ricos têm muito tempo, os pobres quase nada, os ricos tiram dos pobres, ou seja, pode-se dizer que na ficção o tempo é tido como moeda de troca. Lembrei desse filme hoje, enquanto comia minha salada. Pedi salada, frango desfiado, purê de batata doce e suco de melão. Me orgulhei de ter optado por algo saudável, e pensei comigo, ainda bem que inventaram esses serviços delivery fitness, o que seria de mim? Não teria tempo de preparar uma refeição dessas, imagina, seria o tempo de desfiar o frango. Pois bem, o insight veio: comprei meu tempo.
Vende-se muito, mas muito do que se vende é exatamente isso: tempo. Me vi assustada com o fuá da nossa estrutura social. Como fora, não tenho tempo de ir ao mercado, de preparar a comida ou lavar louça. Estou sem tempo, não rola de limpar a casa, vou chamar a faxineira. Não há tempo de ir ao banco, de lavar a roupa, tirar o lixo, fazer compras, levar os filhos para a escola, trocar uma lâmpada, pedir o gás, comprar um filtro novo, passear com o cachorro, levar o sapato para arrumar. E então, o que fazemos em relação a todas essas coisas as quais seríamos bem capazes de fazer? Pagamos a quem o faça. Compramos o tempo de alguém, geralmente por pouco, muito pouco. E então, enquanto você curte a vida na Polinésia Francesa ou simplesmente trabalhando com o que gosta, tem alguém deixando a vida passar por uma gorjeta qualquer e fazendo o que você chama de serviço sujo.
Foi ignorante da minha parte não ter notado, a príncipio, a essência de uma ficção a qual julguei simplesmente como um romance bobo, porque esse não é um futuro longíquo: nós vivemos na era em que o tempo virou produto e também moeda. Muitas pessoas vivem da venda do seu próprio tempo, o que é triste. Sim, elas precisam disso para sobreviver, precisam desse dinheiro e desse trabalho, mas ao fim de tudo, é isso mesmo? Será que elas realmente gostam disso ou é apenas questão de necessidade? É um tempo perdido ou um tempo vendido? Tempo vendido é a mesma coisa que tempo perdido? Depende.
A história vai além. Ainda existem as opções gourmetizadas das coisas. Paga-se para comer em um restaurante por prazer, para ir em um museu, para aprender um novo idioma. Paga-se pelos bons tempos e para quem viva por você os tempos ruins. Que tipo de pessoas viramos então? Semi-pessoas, pessoas divididas ao meio, jogamos a outra metade fora. Nos tornamos o tipo de ser humano que despreza o prazer pela vida e eleva padrões que não devem ser elevados: levar seus filhos para a escola não é, de forma alguma, menos importante do que levá-los ao melhor lugar do espetáculo de ballet na temporada Russa. Pelo contrário. Você vai criar pessoas melhores se estiver lá, esperando o portão abrir e mostrando que faz questão da sua educação e dos seus problemas cotidianos, afinal, os filhos também precisam saber que você se importa. Aliás, eles precisam ter certeza disso. Você só vai ter uma casa menos empoeirada quando realmente aprender a limpar, e ninguém vai explicar ao sapateiro como você quer, exatamente, o verniz retocado. Ninguém vai viver a sua vida por você como você mesmo faria, e sabe porquê? Porque estão todos preocupados com suas próprias vidas e com seu próprio tempo perdido/vendido.
Então, trabalhe, e em algum momento você vai mesmo precisar comprar seu tempo e também vendê-lo. Mas venda fazendo aquilo que goste, e compre quando realmente julgar necessário. Abrace seus filhos, ensine alguém a andar de bicicleta, encontre sua irmã para um café, prepare seu próprio café, vá ao mercado, leve seu primo ao parque do prédio, tome conta do seu avô. Porque nessa de vender e comprar, tem sempre vida se perdendo, e guarde esse segredo: ela é sua e ela passa.

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Para o mundo

intern

Ontem fui ver a nova comédia de Nancy Meyers, “The intern”, e confesso que, de cara, me encantei antes pelo elenco que pela sinopse em si: Anne Hathaway e Robert De Niro, duas peças chaves, admiro. Me deparei com uma daquelas comédias simples e que te fazem sair sorrindo do cinema, mas dentro do próprio clichê que carrega consigo, há algo de sutil. É sempre o que faz o clichê sair do clichê, não é? Pois bem, vem um spoiler de leve aí, se for daqueles que tiram lições de filmes por si mesmo, pare por aqui.
A princípio acreditei que seria mais um desses filmes em que o mais novo aprende lições de vida com o mais velho, e de certa forma, essa é a essência, mas a história coloca isso de uma forma atual e peculiar. Jules, personagem de Hathaway, é (mais uma) workaholic, que coloca a ansiedade a frente das coisas. Você consegue sentir o espírito dela se contrapondo ao seu, cheguei a perder a paciência, a personagem foi tão bem encenada que eu mesma fui levada pela onda de nervosismo dela. De Niro chega para ensinar a lição que uma geração inteira precisa aprender: calma.
Em época de prazos, carros, fumaça, buzina, smartphones e laptops, já é claro que as pessoas se perdem de si mesmas. Pensei esses dias sobre o quão cansada estou de pessoas blasé, mas refletindo mais a fundo, canso mais dos negativistas. Eles olham tudo da pior perspectiva possível, se você aponta uma solução, a olham com a crítica na ponta da língua. Sabem mais, entendem mais, são mais experientes e menos ingênuos: é óbvio que o seu projeto tem mil problemas de execução e outros tantos na logística, e é por isso que sempre chegam a conclusão genial de que não vale a pena tentar. Um quê de Blasé? Talvez.
Então, vamos lá, mais calma, pessoal. Fazendo o favor, pare o mundo que eu quero descer. Quero sair dessa história mal contada em que as pessoas não tentam viver por medo de dar errado, não apostam porque previamente calculam chances e estatísticas, consideram mais os ” e se” do que os “vamos então”.
Quero um mundo de otimistas, que estimulem uns aos outros a ir em frente, a topar apostar o vaso da avó no bingo, a investir naquela empresa que sua intuição diz prometer, mas todos criticam, abrir o restaurante que você sonha há anos, e até consegue bancar, só não sabe se dá conta.
Grandes pessoas impuseram grandes ideias sob a visão de críticos, pessimistas e blasés. Essa é a lição que o personagem de De Niro nos dá: Você escolhe em qual lado vai estar. Você opta por ser Nicolau Copérnico ou o vizinho dizendo que a roseira que você plantou não vai crescer de jeito nenhum, veja se o clima ajuda. Escolha entre ser Mark Zuckerberg e o colega que desistiu do projeto porque pregava o fracasso.
Se sente que é capaz, ignore os pessimistas e os blasés, eles não sabem de nada, só precisam descontar as próprias invejas e frustrações em alguém. Não se coloque como alvo. Escolha entre ser banal e agir. As críticas virão. Receba e mande embora.
E você, ser humano negativo que está lendo isso, pare de dar nó em você e nos outros. Aprecie o crescimento dos outros e se inspire, ao invés de colocar empecilhos imaginários em tudo, cresça você mesmo. É preciso agir sim, com calma, com um passo de cada vez, com equilíbrio. Se guie, tape os ouvidos e vá. Bravo, De Niro.

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