Desconstrução do poema

Você sabe como nasce um buraco negro? De possíveis exaustões estrelares. Dizem que tudo que entra no horizonte dele é destruído. Até mesmo lembranças, até mesmo sentimentos. É tudo esticado, é cientificamente considerado o fim do tempo.

O tempo é relativo, disse Einstein.

Já se passaram dois meses.

Você sabia que a força da gravidade é infinitamente menor que forças bem mais subjetivas no núcleo de um átomo? 

A resistência da gravidade é bem curiosa, pensando que quando se cai de um avião você desce a mais de 200 km por hora. Não sei se a aceleração é constante, o paraquedas me puxou a tempo.

Dois meses.

Na impossibilidade de sentir, sofra, me disse uma amiga uma vez.

Na impossibilidade de sentir, resolvi viver. 

E eu vivi. 

Vivi enquanto saltava de um avião a quatro mil metros e senti que voava. Foi bom.

Vivi quando senti medo.

Vivi quando fui escalar.

Vivi quando passei cinco dias no meio de uma floresta do cerrado sem energia elétrica, ou rede de celular. 

Também lá não tinha ventilador para espantar pernilongos, ou as aranhas, gorilas e cobras. Não, não tinha uma tomada sequer. 

Vivi com muitas picadas.

Eu vivi no dia em que pedi bigorna porque era perto. Chegou frio, meu pé está frio, não tive você.

Vivi no dia em que quis pizza de brócolis e pedi uma qualquer aqui por perto, mas não era a mesma.

Vivi quando entendi que não era mais pizza na sua casa e hamburguer na minha, mas continuam escrevendo o mesmo Malu na caixa.

Eu entendi que vivia quando confundi a entrada da anchieta para minha casa e me dispus a ir reto, o tão velho e tão conhecido caminho para a sua casa.

Vivi quando senti falta de um cachorro, e adotei um.

Vivi quando via prismas na rodovia e ria de canto de boca.

Vivi quando reli mensagens e revi fotos.

Quando meu pneu estava com 8 libras mesmo depois de eu ter mandado consertar.

Quando vi dígitos negativos na minha conta bancária e ri disso.

Quando cantei no karaokê até o dia raiar, e quando cantei sozinha e dancei sozinha. E cozinhei sozinha.

E também quando senti sua falta.

Vivi com os desafios de cada dia, e com um convite para escrever um livro. Deus sabe o quanto esperamos por isso. 

Vivi sem ter você para ligar para contar.

Também quando comi comida italiana com seus pais, dia desses, eles não saem de mim e nunca vão sair, acho que a esse sentimento devo me adaptar, porque amor não se mata, né? 

Vivi sem tantas brigas e insegurança. Aprendi que não nasci para me sentir insegura.

Vivi depois do vídeo que você mandou as três da manhã, também rindo de quando você dizia que nunca fez isso. Então decidi encarar apenas como um ato falho.

vivi quando resolvi fingir que não vi para que você não se sentisse mal em ter mandado.

E ah, na floresta do cerrado aprendi uma oração havaiana que podemos fazer para aqueles que passaram por nós.

Se trata de “sinto muito, me perdoe, eu te amo e sou grata”. 

Podemos fazer para nós mesmos também. Tenho feito bastante, para mim, para você e para algumas pessoas.

Vivi ao lembrar de um par de canelas, e por Deus, será que ainda existem? 

Vivi ao rezar para meu anjo da guarda. Aprendi que todo dia de manhã devemos autorizar ele a agir em nossas vidas, sabia dessa?

Vivi ao pensar que por nunca ter falado coisas tão feias, minha paz seguiria ao pedir desculpas, mas meu medo me impedia de pedir, toda vez que lembrava que você me pediu para sumir.

Eu não estou louca, mas eu errei, erramos, e assim eu também vivi.

Na impossibilidade de sentir, viva.

Na possibilidade de viver, viva também.

Na possibilidade de um buraco negro, sinta.

Ao horizonte de um buraco negro, entre em exaustão e se transforme em um. Condense energia suficiente, maior que a gravidade e que a atração entre quarqs,

Romanticamente prefiro acreditar e continuar acreditando que sentir é mais forte que isso.

E quando eu cair num buraco negro,

E quando todo sentimento se esticar até romper, 

E quando minha gravidade for desafiada, e meu tempo acabe

Espero que minha energia voe e flua e você possa senti-la, 

E o mundo possa senti-la.

Para que eu enfim, já não mais viva,

Mas viva,

Viva já sem tanta carga, tanto medo, tanta saudade,

viva só sentimento,

quantas vezes forem necessárias.

e de repente,

nos vemos.

mais e mais.

e de repente,

Estamos fortes.

Estamos,

mais,

e fortes.

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