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Você sabe como nasce uma flor?

Primavera. As abelhas estão sumindo. No quintal da minha tia avó eu ouvia, quase que diariamente, que o cântico que ardia lá fora era do beija-flor da árvore, que ia até ali tomar a água. Ela deixava água, potes de água, pendurados na árvore velha, para assim atrair o cântico, toda santa tarde. Um ritual. A árvore era cheia de flores vermelhas que se proliferavam, e àquela altura eu já queria saber de onde vinham. “As abelhas, meu bem”, me diziam. Quais abelhas? Eu nunca via as abelhas fazendo o trabalho delas, eu não via o pólen sair dali e vir para cá, nem o via fazer o caminho de volta nas patinhas do inseto. Então, posso dizer que essa coisa de acreditar no nascimento de flores é antes uma fé do que qualquer coisa. Você acredita, mas não necessariamente vê.
Verão. As abelhas estão sumindo e isso é de certo modo alarmante. Como é depender de outro ser vivo para ter o trabalho feito, às expectativas correspondidas ou a perpetuação de sua própria existência? As flores estão sujeitas a um destino fadado, tente imaginar uma vida sem flores. O jardim de Versalhes e tantos outros suntuosos vão virar balela, as mesas de casamento e da formatura não terão cores ou beleza, os mocinhos apaixonados vão ser obrigados a enviar chocolate em um mundo onde a intolerância à lactose está perpetuada, o ar vai ficar mais raro, perfume mais raro, beleza-de-todo-dia mais rara.
Os professores de português terão de reinventar metáforas, não ouse a comparar indiretamente ou diretamente ninguém ou nada a uma flor. O que são flores?
O vento de fim de tarde sopra forte, inimaginavelmente forte. O calor faz o drama do meu pensamento corroer o corpo encharcado.
Outono, e o vento mantém firme. Quem precisa das abelhas se esse ventão todo pode espalhar brisa e pólen aos quatro cantos? Mentira, essa ideia das abelhas sumirem ainda é decepcionante, mas acontece que os fatos são esses: o pólen precisa ir e precisa cair naquele lugar específico. Oitenta e cinco por cento das abelhas são solitárias, elas tem uma missão de vida. Cem por cento dos seres humanos são solitários. Como as abelhas solitárias. Eles tem uma missão na vida, um pólen a ser entregue, com cada grão inserido no caos. Não existe tempo certo, e eles não sabem disso porque pensam estar em uma colmeia. Talvez por isso eu vejo tantos seres humanos e tão poucas abelhas.
Inverno. Vá lá, sente na frente da lareira, se pergunte onde estão as flores para eu te dizer que nem tudo são flores. Quase não tem vento e não vejo abelhas, o clima não está propício para isso, e sabe de uma coisa? Tem dias que o clima não está propício a nada. Tem dias que temos que agarrar a corda, fechar os olhos e dizer, é isso aí, camarada, exerça sua resiliência. Às vezes a paciência é a única coisa que você pode fazer sobre as coisas estarem como estão, não existe outra saída senão esperar. E quando você espera, enquanto espera, estará exercendo uma decisão sábia ao reconhecer que, no momento, não consegue tomar decisão alguma. Então, a ordem dos fatores não altera nada, a menos que você coloque os fatores em ordem e espere em conforto, de preferência com vinho e chocolate. Sem flores, sem abelhas, a vida anda.
Primavera. E elas estão aqui de novo, sorrindo para o vento. Ainda não vi abelhas, ainda não vi o pólen e talvez o sinta nos meus espirros, mas os jardins estão bonitos. A pensar, qual a chance de o pólen cair no lugar certo? Qual é a chance de existir um negócio chamado po-li-ni-za-ção, polinização, gente, como isso é possível, como nasce uma flor?
Se uma flor nasce do mais improvável, de abelhas oitenta e cinco por cento solitárias, quais são as chances de seres humanos renascerem com ajuda de outros seres humanos, cem por cento solitários?
As abelhas estão sumindo, e isso é alarmante. As abelhas estão sumindo, e isso é decepcionante. As abelhas estão sumindo, existem dias sem vento, e as flores continuam a nascer, ano após ano. Então não suma. Feliz Ano Novo.

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500 dias quaisquer

Eu tinha prometido pouco tempo antes, o que era necessário e nós dois sabíamos ser necessário. Prometera que até que chegue o próximo dia, deveria deixar o anterior a ele para trás, como as coisas sempre devem ser, ou não? Olhei pela janela tentando encontrar em seu olhar a confirmação para isso, como sempre faço quando se trata de nós dois. Mas a confirmação não estava ali, e naquele determinado dia eu resolvi que deveria abraçar essa certeza sozinha. Que viesse o próximo dia, porque o nosso tinha ficado para trás.
Naquele determinado dia, resolvi tirar as coisas de dentro das tantas caixas de papelão da mudança, e bem queria eu me livrar de todas as coisas e de todo bem material que estivesse perto de mim. Era o que eu fazia dentro do meu (novo, desconhecido) quarto.
” Essa caixa de lápis de cor, você usa? você vai usar isso?”
Merda. Mordi o lábio. Pra quê eu usaria? Eu não pinto. Eu não uso aquela caixa, e você é, definitivamente, o motivo para eu querer deixá-la intacta. Nem um único lápis apontado. Nenhum precisou, mesmo quando ganhei um livro de colorir francês e pintei avidamente mandalas, fazendo força para que eu precisasse ao menos APONTAR um daqueles lápis, Deus. Mas não, era uma luta interna, e uma das minhas partes não teve êxito, de modo que eles continuavam ali.
Cara, te odeio tanto, você é tão egoísta, onde você estava para não estar me dando essa resposta? Sempre egoísta.
Eu vou usar aquela caixa? De tantos modos. Para tantas coisas. Para pintar um morango na parede branca da sala. Para levar dentro da bolsa e fazer de batom. Meus filhos usariam, um dia, se eu tivesse filhos. Certamente eu usaria. Mas não. Dentre todas as coisas materiais das quais queria me livrar, era a que mais fazia real sentido me livrar. Mas não, de novo não, não vou usar, e eu não tinha mais o que falar.
Então pensei na minha promessa, e pensei que era a hora, enfim. Fala que não. Deixe que leve, vai ser útil para ela. Vá lá, quanto custa uma caixa de lápis de cor de quarenta e oito cores? Que custe quinhentos e cinquenta e sete reais, paga. Se precisar de uma nova, paga, mas não vai precisar, sabe porquê? Porque você não usa. Então, fala que não, não vai usar.
Joga essa caixa pela janela, não tem problemas, ninguém vai querer. Leve a um antiquário, onde enterrem sentimentos, o mesmo da onde você tirou aquele telefone vermelho dos anos 60 para me dar de aniversário.
Não era só uma caixa de lápis de cor. Lembra porque você me deu? Eu não tinha a cor nude na minha caixa da pré escola. Só tinham quinze. Porque eu precisaria de mais?
Acho que desde criança preferia os tons sóbrios. Eu não usava o pink, queria nude. Hoje, se fosse escolher uma caixa, compraria de novo quarenta e oito cores, e tiraria duas: nude e cinza. E, então, só usaria elas. Você sempre soube disso, o tipo de coisa inútil que não se conta para as pessoas. Aliás, será que nas caixas de quinze insistem em não colocar o nude ainda? Preciso pesquisar isso.
Poucos dias antes do dia em que ganhei aquilo de você, fomos assistir a “500 dias com ela” no cinema. Não lembrava do filme. Nunca lembrei do filme. Dizem que é muito bom, e eu respondo que eu nunca o vi. “Sério, é bom? que coisa, é o que dizem, pois é, preciso ver isso aí.”
De certa forma, era verdade, e eu nunca pude entender o porquê esse era um vão enorme em minha memória. Nem um vislumbre de imagem. Você saiu contente do cinema aquele dia, lembra? Você amou a trilha sonora.
Para que eu manteria a caixa? Queria que você tivesse essa resposta, depois de me dizer que guardou o relógio de bolso. Fiquei imaginando onde ele estaria, no fundo do seu guarda roupas cheio de calças que você nunca vai mandar apertar. Naquela noite, coloquei a maior camiseta do armário e andei inquieta pela (nova, desconhecida) sala. Coloquei a trilha sonora de “500 dias com ela” para tocar. The Smiths. Bom gosto, quase sempre.
Por que raios eu não me lembrava? Me lembrei de locar. Eu esqueci. Tentei pela internet, dei pausa quatro vezes e desisti no play subsequente.
Hoje lembrei. Hoje peguei o DVD, coloquei, sentei naqueles dois sofás da frente da televisão já que não conseguia enxergar nada sem óculos. Não lembrei de trazê-los, como sempre. Decidida a ir em frente e ver, encasquetada na ideia de que  esse filme poderia ser libertador. Hoje tinha brisa da janela. Então, pude entender algumas possibilidades sobre os mecanismos psíquicos que eventualmente me fizeram esquecer sobre o filme.
Eu parei de espirrar quando sento naquela sala, sabia? Acho que foi o corticóide que andei tomando, deve ter sido de alguma utilidade. Odiava tomar corticóides, né? Mas voltando ao filme, se devesse mesmo voltar, voltei, até o fim.
Bom, quer dizer que tudo isso foi porque histórias de amor acabam? Bem, é isso, então. Eu chorei, porque eu quase sempre choro em filmes, você sabe.
Lembro que aquele dia no cinema eu chorei muito também. Na recusa de saber o que iríamos ser? Talvez. Mas somos, baby. De qualquer forma, somos.
O mundo está aí, nós só passamos por ali. O amor está aí.
Histórias de amor acabam, o amor não. Lembre, me lembre se eu fraquejar, de agradecer que tudo continue intacto nessa nossa cabeça enorme, como quando eu te mostrava uma música nova, cantando ridiculamente, e você ficava olhando com cara de bobo dizendo que acabou de encontrar uma louca ou como quando você me deu uma rosa para cada olho, de cada dia que passava longe. Poderia te dar milhões de rosas agora, porque você não precisa passar, nem nos dias que eu te odeio, nem nos que eu te amo.
“Não sei se vou usar esse lápis de cor”.
“Na verdade, vou usar sim. Deixa aí”.

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Se eu pudesse te ensinar sobre paixão

Se eu pudesse controlar o que vem depois, eu juro que te pouparia das dores que os acontecimentos bons ou ruins traem consigo. Mas eu te peço que não se traumatize, não crie caso. Eu sei que deve ter doído por uma, duas, cinco vezes, mas não faça caso, tire isso de dentro de você, abandone essa ideia.
Se eu pudesse te ensinar sobre se apaixonar, eu te diria para ir à uma temakeria. Ninguém come temaki com glamour, ninguém de fato SABE como comer um temaki sem derrubar uma quantidade significativa de peixe ou balançar a cabeça de acordo com algo que o outro fale enquanto tem um pedaço de alga pendente no dente. Eu desejo que a pessoa por quem você se apaixone te aceite do jeito que você é, e que essa pessoa não ameace te achar feio ou sem graça mesmo na situação em que você fica mais deplorável, seja babando peixe, seja suado após a corrida, acima do peso após um período de ansiedade ou doente na cama de um hospital. Se apaixone por quem te veja sempre de um jeito terno, quem sempre vai te achar bonito e apreciar seu sorriso, independentemente das circunstâncias.
Se eu pudesse, te falaria, não crie expectativas, mas se apaixone por quem te surpreenda. Com uma carta, com comida, com flores amarelas, com uma visita, uma montanha-russa, música e um violão, ou pela simples presença. Existe um ponto em que as coisas vão se tornar bastante tediosas, e não se engane, isso também vai acontecer com você, e não apenas uma vez. Isso acontece frequentemente, com todo mundo. A esse momento, você vai desejar ter escolhido alguém que te surpreenda, com os menores detalhes, ainda que sem grandiosidade, um pouquinho por dia. Você vai desejar ter do seu lado alguém que te tire para dançar em um dia depressivo, e se isso soar piegas, alguém que tenha ingressos para o jogo do Domingo quando você se julgar cansado para isso. Se apaixone por alguém que te levante da cama quando você não tiver condições para isso, e não por alguém que te deixa de lado quando sua condição é essa.
Se eu pudesse te dar um conselho, te diria para escolher quem te faz sorrir, ou quem sorri com você, mas desejo que essa pessoa seja capaz de aceitar seu lado feio, porque ele existe. Espero que essa pessoa esteja disposta a aceitar o seu “não” e também o seu choro, e torço para que você não tenha vergonha de assumir suas fraquezas e seus defeitos, por mais gritantes que sejam. Escolha quem te admira e quem não te faça se perder de você, de quem você é e do que você faz, esteja você ganhando o Nobel ou desempregado.
Se eu pudesse te dar um conselho sobre se apaixonar, eu diria para ficar do lado de quem te faz achar que o mundo pode acabar hoje, quem te faz sentir que vai vomitar felicidade e que você pode girar sua cabeça incontrolavelmente, quem te faz achar que o tempo parou, o mundo embelezou e ninguém mais está ali, mesmo que você esteja no meio da Avenida Paulista. Se apaixone por quem te faz se sentir no filme de sua própria vida, porque a paixão traz consigo romance, e, algumas vezes, dor.
Se apaixone por quem te conduz com a mão, venda seus olhos e te leva ao cinema, para a praia ou para o outro lado do mundo. Caía de paixão por quem te diz sim e topa viver ao seu lado, quem pondera, quem fala muito sim e também sabe te dizer não. Se eu pudesse te ensinar sobre a paixão, te diria que arrisque até as últimas circunstâncias. Se eu pudesse te ensinar sobre paixão, te diria para comprar a briga, para não abandonar, não ter medo, cair de cabeça. Te diria: fique com ele! Fica com ela! Estou torcendo, o resto não vale a pena! E se eu pudesse te ensinar, te falaria para achar o amor, porque, o amor? Ele fica. Ah, ele fica.

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Agora é que são elas

 

amigas

 

Meus amigos homens que me perdoem, mas peço licença para um adendo que pode ser visto como três pontos e que, muito provavelmente, ainda contemple a vocês. Porque é incontestável, em um momento bem específico da vida, que são elas: as que te trazem um sorriso, um abraço, a bronca, um copo de água com açúcar, meio rivotril, colo, brigadeiro ou uma garrafa de vinho.
São elas que te passam o telefone daquela dermatologista top, o endereço da feira de orgânicos ou te matricula em algum cadastro de academia sem mais, nem menos. Elas sabem só de olhar, e entendem pelo silêncio. Vocês também se falam em silêncio, muitas vezes.
Amigas queridas, vividas, indispensáveis, e entendam como quiser. Não há outra pessoa no mundo que segura sua onda quando acabou o dinheiro para o táxi da volta, que te avisa sobre como seu rosto está cintilante porque você resolveu usar protetor solar à noite, que te abriga no sofá da sala por treze meses depois do seu divórcio ou que aparece com chocolate naquela TPM em que você já rezou para todos os santos ou orixás para passar, sem êxito.
Amiga para aquelas horas em que você surtou três vezes seguidas porque acha que não vai dar conta do TCC, do emprego, da faculdade, do plantão. Amiga para comer coxinha de domingo, para te fazer rir de comentários disléxicos ou te colocar a par da vida depois de passar três meses sem ligar a TV, e também amiga para comentar o último episódio de alguma série da Shonda Rhimes (bem como dividir a raiva contida após esse último tópico).
São elas que te deixam ciente dos seus momentos de retardo, que te carregam nas costas até o bar mais próximo naquela sexta feira em que você está morrendo depois de trabalhar doze horas, te obrigam a correr a São Silvestre na chuva enquanto ouvem atentamente (ou não) você contar a mesma história da briga com seu namorado, no fim de semana passado.
Amiga para não cansar de você, e que mesmo assim cansa, profere xingamentos, grita e bate a porta do seu carro como se no mundo não existissem geladeiras, e fica tudo bem. Aquela com quem você briga direto e reto, mas sabe que é para quem pode voltar, com quem já deu mil mancadas e de quem recebeu mil e uma de volta, mas as coisas não mudam.
Para brindar seu casamento ou o delas, escolher o carrinho do bebê, ir fazer a unha ou retocar a raiz, ser seu álibi quando ninguém mais entende ou pode entender o mundo em que você está. Esquecem de responder seu whatsapp, esquecem também o dia do seu aniversário, e ainda mandam um dane-se. Também te socorrem nos domingos de manhã e todos os outros dias da semana, e te perdoam pelos seus erros, até mesmo quando você é incapaz de se perdoar. Estão logo ali, até a última gota.
Agora é que são elas, que estão longe e não mudam nem um tantinho, que você não deixa de falar nenhum dia, ou que se passam anos sem trocar uma ideia, mas é a mesma coisa. São elas que sabem dos seus transtornos mais profundos, suas crises existenciais, dos seus parafusos a menos das suas nóias a mais. Também são aquelas que olham discretamente para o seu traseiro quando você está desesperada por acreditar cegamente que não está tudo bem naqueles dias, e depois fazem uma assertiva positiva com a cabeça no maior estilo “tá tudo bem, não foi dessa vez”. Sabem contar seus dramas familiares melhor que você. Elas te avisam quando não dá para te defender, amiga, sua louca.
Essas amigas de vida, de trabalho, de infância, de café, do clube, da academia, de família, da Igreja, do cursinho, da faculdade, de encontros. Nosso presente da vida para a vida. Amigas, amigas e amigas.

 

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As mil cores

Se o desprazer dos dias sufoca qualquer angústia do espelho
Agradeça
Se sua sombra consola seu zelo e desapego
A abrace
Se sua essência grita ao vento desamparo
A deixe
Se sozinha se contorce aos quatro cantos
Acalente sua alma
Silencie seus imperativos
Obedeça a nada
E me tire para dançar

Se na dança ei de estar
Duvide
Se a dança acabar
Não deixe
Se a música não tocar
Toque
Se minha mão hesitar
A segure

Se a vida desandar
Ande
Se a vida se perder
Apresse
Se a perda se extendeu
Chore
Se pensar como eu
Viva

E se acaso a vida
te abandone como tal servo
a te deixar no múrmurio de um beco
qualquer seja
E se acaso a vida
te deixe de lado
E se acaso a vida
me deixe na rotina
me deixe
me mate.

Feliz dia da poesia!

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Tempo vendido

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Assisti há alguns meses o filme “O preço da amanhã”. O filme já é velho, de 2011, mas vou dar um resumo breve para situar a quem ainda não viu. Trata-se de uma época futura na qual a ciência descobriu uma forma para que as pessoas parem de envelhecer aos 25 anos, e, a partir de então, trabalham e lutam para conseguir, possivelmente, um merecido tempo de vida. Os ricos têm muito tempo, os pobres quase nada, os ricos tiram dos pobres, ou seja, pode-se dizer que na ficção o tempo é tido como moeda de troca. Lembrei desse filme hoje, enquanto comia minha salada. Pedi salada, frango desfiado, purê de batata doce e suco de melão. Me orgulhei de ter optado por algo saudável, e pensei comigo, ainda bem que inventaram esses serviços delivery fitness, o que seria de mim? Não teria tempo de preparar uma refeição dessas, imagina, seria o tempo de desfiar o frango. Pois bem, o insight veio: comprei meu tempo.
Vende-se muito, mas muito do que se vende é exatamente isso: tempo. Me vi assustada com o fuá da nossa estrutura social. Como fora, não tenho tempo de ir ao mercado, de preparar a comida ou lavar louça. Estou sem tempo, não rola de limpar a casa, vou chamar a faxineira. Não há tempo de ir ao banco, de lavar a roupa, tirar o lixo, fazer compras, levar os filhos para a escola, trocar uma lâmpada, pedir o gás, comprar um filtro novo, passear com o cachorro, levar o sapato para arrumar. E então, o que fazemos em relação a todas essas coisas as quais seríamos bem capazes de fazer? Pagamos a quem o faça. Compramos o tempo de alguém, geralmente por pouco, muito pouco. E então, enquanto você curte a vida na Polinésia Francesa ou simplesmente trabalhando com o que gosta, tem alguém deixando a vida passar por uma gorjeta qualquer e fazendo o que você chama de serviço sujo.
Foi ignorante da minha parte não ter notado, a príncipio, a essência de uma ficção a qual julguei simplesmente como um romance bobo, porque esse não é um futuro longíquo: nós vivemos na era em que o tempo virou produto e também moeda. Muitas pessoas vivem da venda do seu próprio tempo, o que é triste. Sim, elas precisam disso para sobreviver, precisam desse dinheiro e desse trabalho, mas ao fim de tudo, é isso mesmo? Será que elas realmente gostam disso ou é apenas questão de necessidade? É um tempo perdido ou um tempo vendido? Tempo vendido é a mesma coisa que tempo perdido? Depende.
A história vai além. Ainda existem as opções gourmetizadas das coisas. Paga-se para comer em um restaurante por prazer, para ir em um museu, para aprender um novo idioma. Paga-se pelos bons tempos e para quem viva por você os tempos ruins. Que tipo de pessoas viramos então? Semi-pessoas, pessoas divididas ao meio, jogamos a outra metade fora. Nos tornamos o tipo de ser humano que despreza o prazer pela vida e eleva padrões que não devem ser elevados: levar seus filhos para a escola não é, de forma alguma, menos importante do que levá-los ao melhor lugar do espetáculo de ballet na temporada Russa. Pelo contrário. Você vai criar pessoas melhores se estiver lá, esperando o portão abrir e mostrando que faz questão da sua educação e dos seus problemas cotidianos, afinal, os filhos também precisam saber que você se importa. Aliás, eles precisam ter certeza disso. Você só vai ter uma casa menos empoeirada quando realmente aprender a limpar, e ninguém vai explicar ao sapateiro como você quer, exatamente, o verniz retocado. Ninguém vai viver a sua vida por você como você mesmo faria, e sabe porquê? Porque estão todos preocupados com suas próprias vidas e com seu próprio tempo perdido/vendido.
Então, trabalhe, e em algum momento você vai mesmo precisar comprar seu tempo e também vendê-lo. Mas venda fazendo aquilo que goste, e compre quando realmente julgar necessário. Abrace seus filhos, ensine alguém a andar de bicicleta, encontre sua irmã para um café, prepare seu próprio café, vá ao mercado, leve seu primo ao parque do prédio, tome conta do seu avô. Porque nessa de vender e comprar, tem sempre vida se perdendo, e guarde esse segredo: ela é sua e ela passa.

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Para o mundo

intern

Ontem fui ver a nova comédia de Nancy Meyers, “The intern”, e confesso que, de cara, me encantei antes pelo elenco que pela sinopse em si: Anne Hathaway e Robert De Niro, duas peças chaves, admiro. Me deparei com uma daquelas comédias simples e que te fazem sair sorrindo do cinema, mas dentro do próprio clichê que carrega consigo, há algo de sutil. É sempre o que faz o clichê sair do clichê, não é? Pois bem, vem um spoiler de leve aí, se for daqueles que tiram lições de filmes por si mesmo, pare por aqui.
A princípio acreditei que seria mais um desses filmes em que o mais novo aprende lições de vida com o mais velho, e de certa forma, essa é a essência, mas a história coloca isso de uma forma atual e peculiar. Jules, personagem de Hathaway, é (mais uma) workaholic, que coloca a ansiedade a frente das coisas. Você consegue sentir o espírito dela se contrapondo ao seu, cheguei a perder a paciência, a personagem foi tão bem encenada que eu mesma fui levada pela onda de nervosismo dela. De Niro chega para ensinar a lição que uma geração inteira precisa aprender: calma.
Em época de prazos, carros, fumaça, buzina, smartphones e laptops, já é claro que as pessoas se perdem de si mesmas. Pensei esses dias sobre o quão cansada estou de pessoas blasé, mas refletindo mais a fundo, canso mais dos negativistas. Eles olham tudo da pior perspectiva possível, se você aponta uma solução, a olham com a crítica na ponta da língua. Sabem mais, entendem mais, são mais experientes e menos ingênuos: é óbvio que o seu projeto tem mil problemas de execução e outros tantos na logística, e é por isso que sempre chegam a conclusão genial de que não vale a pena tentar. Um quê de Blasé? Talvez.
Então, vamos lá, mais calma, pessoal. Fazendo o favor, pare o mundo que eu quero descer. Quero sair dessa história mal contada em que as pessoas não tentam viver por medo de dar errado, não apostam porque previamente calculam chances e estatísticas, consideram mais os ” e se” do que os “vamos então”.
Quero um mundo de otimistas, que estimulem uns aos outros a ir em frente, a topar apostar o vaso da avó no bingo, a investir naquela empresa que sua intuição diz prometer, mas todos criticam, abrir o restaurante que você sonha há anos, e até consegue bancar, só não sabe se dá conta.
Grandes pessoas impuseram grandes ideias sob a visão de críticos, pessimistas e blasés. Essa é a lição que o personagem de De Niro nos dá: Você escolhe em qual lado vai estar. Você opta por ser Nicolau Copérnico ou o vizinho dizendo que a roseira que você plantou não vai crescer de jeito nenhum, veja se o clima ajuda. Escolha entre ser Mark Zuckerberg e o colega que desistiu do projeto porque pregava o fracasso.
Se sente que é capaz, ignore os pessimistas e os blasés, eles não sabem de nada, só precisam descontar as próprias invejas e frustrações em alguém. Não se coloque como alvo. Escolha entre ser banal e agir. As críticas virão. Receba e mande embora.
E você, ser humano negativo que está lendo isso, pare de dar nó em você e nos outros. Aprecie o crescimento dos outros e se inspire, ao invés de colocar empecilhos imaginários em tudo, cresça você mesmo. É preciso agir sim, com calma, com um passo de cada vez, com equilíbrio. Se guie, tape os ouvidos e vá. Bravo, De Niro.

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