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Borboleta

Olhava para cima e imaginava alma aos ventos, subindo de si para as direções, coordenadas, diversas, diversos, sentidos, sentia. Sentia. Podia mesmo sentir a alma indo embora e murmurava um adeus de choro impresso dentro, suplicante por entre os dentes, escorrendo por entre as diversas e milhares de almas e facetas de sua personalidade. Que se iam. Que deixavam. Que se foram, com aquela tal volatidade das coisas. Era branca a alma, era tudo branco. E via. E sentia aquele chorar baixinho e preso, na gaiola da laringe em edema, do edemaciado pessoal, e de edemas recorrentes. Canção, cante agora. Toca na sua vez de tocar, leve consigo a melodia serena e tudo aquilo que com ela se deve levar. Leve a alma lá para cima e bem junto do Senhor. Implorava com os olhos fumegantes e sem sentido. Fitava o escuro do teto e o céu logo acima com certos pedidos embutidos. Não sabia do céu, do azul ou do preto, não sabia do negrezar que vinha depois, sabia do branco. Ô, alma, corre branca, mas abranda. E vai devagar. Vai, lentifica, porque as incertezas traduzem ainda um hesitar perene. E diz-se ainda implorar um desejo na valsa dos brancos de cenário negro, na dança do escuro com pés vestidos em claro, com contrastes de corações em paz. Pedia e suplicava e implorava e olhava com o brilho dos olhos: olhava para a claridão. Pedia ao Senhor para ser borboleta. Dizia que queria as asas. Queria asas. Queria bolas coloridas. Precisava do colorir, da janela bonita, da paisagem verde, das tecnologias enterradas. Só queria ser borboleta. Borboleta longe do sol, longe das almas e perto da alma. Queria ser borboleta, do Senhor, Senhor. As asas. Coloridas. Cirandas. Queria uma ciranda de crianças no concreto pintado de amarelinha e quatro-cantos, queria uma cantina logo ao lado e o chão de ladrilhos vermelho. Queria a mancha do geladinho rosa que a menina não pagou. Queria a missa na Igreja bonita, enfeitada para todo dia. Queria uma sala de artes, com guache. Apreciava ser criada e colorida por crianças, por todas as mãos e todas as cores. Queria uma parte delas para si e a infância. Pedacinho da ciranda que roda. Era vidro e se quebrou. E vazou. Os pincéis se misturaram e, com eles, todas as cores do mundo. Vamos dar a meia volta. Borboleta voou. Feliz. E voou.

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