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Ser ou não ser da questão doméstica

Tum, tum, tum, roda gira, gira roda, pedra aqui, mato acolá. A conversa viria animada, ela olhava adiante, logo na janela do carro. Fitava a vegetação por qual passavam, sem perspectiva alguma e de cabeça vazia. O interior adentrava e ficava mais quente. A conversa, de fato, encalorava, se embrulhava e tal quanto calorosa como o suor de corpos ofegantes em abraços saudosos. Pois bem, chamou-lhe logo a atenção o teor que seguia, e ralhou a colocar-se atenta. “Mas Dona, olha bem pra isso, seiscentos reais! Seis quilogramas por seiscentos reais!”. Colina, colina, pinheiro. “Meu filho, preste atenção nisso, dia das mães é logo mais, deixe de ser besta!”. Amarelo, azul. “Mas precisa ver, Dona, precisa ver como lava! O dono da loja me contou tudo, disse que não vai ter promoção igual essa não. Diz que não gasta nadinha de nada, Dona, que nem usar sabão ela usa!” Verde. “Careça, menino, e você lá precisa de lavadora? Tá igual a vizinha da frente de casa, comprou uma de doze quilos, trabalha que é uma beleza e a embestada desata a lavar roupa. Imagine só se não devia jogar tudo lá dentro. E sabe que me dizem que isso mancha a roupa, mas a lá de casa não.” Pinheiro. Vaca. “Como que mancha, Dona, se a despiroca trabalha a valer?”. Carro. Nuvem. Carro, nuvem, placa. “E diga lá, ouvi dizeres que quanto mais velha, melhor trabalha. E me diz pra que gastar todo esse recurso com essas modernidades, meu filho? Há de enriquecer comprando tudo que for útil e antigo. Na casa que eu trabalho a máquina é velha, mas faz serviço. Sempre dá enrrosco, o moço que vai fazer o conserto já disse que qualquer dia não dá jeito, mas ele quer é comprar aquela máquina. Avisei a Dona da casa, já disse que o malandro não acha igual”. Silêncio. Silêncio. Quietude. Pinheiro. Pedra. Cabeça bate no teto e o barulho é ignorado. “Mas Dona, sabe que é mesmo verdade, dia das mães é Domingo, vou dar uma procurada lá no centro, devo achar mais barata. Às vezes de até oito quilos! A senhora tá é certa!” Amarelo forte. “Pois é, quando eu digo, é experiência, meu filho, deixa a gente esperto com as coisas da vida”. Quietude. Ímpetos demasiadamente confortantes, como quem chega cansado e tira o sapato, e assiste ao filme em sofá de casa, ou quem dorme no frio em edredons. Coisas da vida.

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