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A reciprocidade da chatice me conforta

Quando você abre mão de uma verdade própria para contá-la aos outros, torna-se evidente que você transfere de si mesmo para o outro a posse de suas próprias opiniões. Por isso, viva seu silêncio como se ele fosse só seu, porque ele é. – notas de viagem- Estocolmo em 30/07/2012

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Copenhagen me ensinou

Estava de breve passagem pela cidade Nórdica, realmente de beleza estonteante. Mas a verdade é que também estava de saco cheio daquilo sobre visitar pontos turísticos. Pois andava por ali com um amigo da Turquia, e, confesso, por alguns instantes eu o odiei. Debaixo do calor sereno, do cansaço da viagem, de algumas horas de trem, ele decidiu impassível: era possível andar a cidade toda a pé, em um único dia. E eu como não sou de largar a mão de desafios, topei, sem saber ao certo que aquela criatura fotografaria todo lapso de momento ou lasca de monumento. Me arrisco a dizer, acredito na máxima de que ele enxergava o mundo pelas lentes. Era exatamente aquilo que acontecia, enquanto jogávamos fora uma conversa qualquer, ou cantávamos músicas andando naquela chuva escaldante, ele batia fotos incansavelmente. Até que eu cansei. Não das conversas, não da música. Não queria mais museu, tão pouco queria monumentos. Não me arriscava na máquina fotográfica, e, embora goste muito de fotografia, aquela ali não era minha praia. Não naquele dia, nem naquele momento. E ainda suplico para que me perdoe meu amigo, mas o deixei no museu e sentei em uma passagem, na rua principal. Fiquei ali por horas ouvindo um casal de músicos tocando e vendo o movimento da cidade. As pessoas. Mais que ver, sentia. Mais que linda, a cidade é viva, cheia de entranhas surpreendentes que cativam a alma. Fiquei ali e não realizei do tempo passar, do relógio correr, do sol que se foi e da chuva que chegou, me encharcou e também foi embora. Era só mais alguém passando, deixando sua marca e abanando a mão. Ir embora é a ordem natural das coisas, de qualquer coisa, afinal. Das duráveis e não duráveis. Não vejo porque não incluir a chuva nisso. Então, me notei ali e tive a impressão de piscar a primeira vez em muito tempo, o que, provavelmente, não era uma impressão real, nem tinha o menor cabimento. Meus sapatos estavam escaldados e eu patinava. A sensação era extremamente desagradável, o couro se moldava ao meu pé, mas eu não estava nem ai. Eu levantei e voltei para o museu, cheia de remorso. Encontrei meu amigo  saindo por aquela porta principal. Desde que me conheço por gente sou míope. Recentemente me dei por astígmata. E depois de algum tempo reproduzindo em cores a vida besta descrita por Drummond, me dei conta de que não tinha direito nenhum de condenar o ver de lentes do meu amigo. Aquelas eram as lentes pelas quais ele queria enxergar o mundo, porque para ele o sentido da vida está em reproduzir o mundo para os outros. O amadurecimento, talvez, trouxesse uma visão diferente, mas as pessoas com quem ele convivia nunca teriam a oportunidade de ver aquilo. E me pareceu tudo inócuo. Me senti grata por aqueles que veriam as fotos com interesse, embora, para mim, fossem fotos vazias. No dia seguinte, quando ele pagou os ingressos para o parque de diversões e não foi em nenhum brinquedo, apenas tirou fotos, eu já entendia. Deixei ele viver com as lentes dele. E eu, que mesmo cheia dos problemas de visão quase nunca cedo a óculos ou lente de contato, preferi continuar com as minhas. O que não fazia as dele menos válidas, apenas diferentes. Nada que precisasse ser verbalizado já que eu sabia e ele sabia. Fui para um lado e ele para o outro. Bastava. No mais, o viver de cada um a sua forma nos proveu de aprendizados sempre válidos, registrados do lado de dentro. Voltamos a nos encontrar na viagem de trem, em silêncio respeitador. A visão dele passava por algumas lentes a mais, um delay necessário e quem sabe apreciador. E eu na certeza de que minha visão de mundo, ainda que totalmente embaçada pelo meu complexo e problemático par de lentes naturais, estava inteira certa. As duas juntas, inseridas no caos. 

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