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Quando você me perdeu

Eu fechei os olhos e desejei estar em uma varanda de qualquer ruela em Viena, observando o papo furado dos turistas logo embaixo. Eles falariam sobre o Danúbio, Mozart, ópera. É o que sempre falam. Mas eu não estava lá, eu só me imprimia por dentro, vãs tentativas de não compreensão. Eu estava sentada na minha cama, cobrindo meus olhos, que estavam molhados, mas eu não chorava. Era só aquele tipo de notícia que você constata, e é dura, mas de tão dura que é te faz encará-la na hora, na vida, no chão, como for, e numa dessas eu fechei os olhos em uma tentativa desesperada de não enxergar. Mas meu amor, era a hora. Eu queria o frio, e o clima estava ameno. Eu queria você, mas foi naquele fatídico dia, e não teve escape, desculpa ou o menor jeito. E então, você me perdeu, não foi?
No dia em que você me perdeu, era clima de uma estação. Minha pele não sentia nada específico, porém. Eu acordei indiferente, e isso não é bom, porque em alguns momentos da vida já aprendi que a gente precisa sentir o tempo todo, amor, amizade, ódio, fúria, calor, frio, o que seja. Mas eu não sentia, e então liguei para uma amiga, na incapacidade de sentir, sofra, ela me disse. Eu precisei de você, assim como preciso em vários momentos do dia. Eu precisava contar qualquer coisa banal, precisava de você no sofá, no quarto ao lado, contando uma piada ridícula ou me consolando com uma conversa boa sobre um dia ruim, mas você não estava lá.
O dia quando você me perdeu, tocava The Beatles na 100,3 FM, eu abri a janela do carro para respirar melhor, reclamava dessa falta de ar subjetiva há algum tempo. Eu fui trabalhar, comi um pão na chapa, e na ansiedade de qualquer vazio que viria no momento seguinte, tomei ao menos quatro copos de café sem açúcar. Sentei em várias cadeiras, e sentia que iria quebrar todas elas, com o peso que carregava.
Eu passei aquele dia inteiro relutando contra forças internas que eu nem ao menos sabia que conhecia. Eu me distraí com qualquer primavera da rua, e também tentei sorrir, sem êxito, sem rir, nem chorar, nem sofrer, nem sentir. O dia em que você me perdeu, ventou. Ventava bastante, e de noitinha fui fazer uma caminhada, eu te disse, não? Mas sua resposta eram apenas palavras, e suas preocupações sempre foram para dentro, nunca para fora. Naquele dia, suas palavras passaram a ser para dentro, também. Era tudo para dentro, toda decisão sobre você, lembra?
No dia em que você me perdeu, o vento, a exaustão, o corte que fiz no meu dedo cortando batata no almoço, não me fizeram sentir. O sereno não me comoveu, não existia sofrimento, eram boas lembranças e muito vazio. E meu amor, como estivemos vazios, não foi? Como nos faltaram palavras, músicas, danças, filmes, mãos. Como nos escapou a vida no meio de tanto sentimento? De repente os carros passavam e estavam parados, pessoas falavam caladas, olhares suplicavam indiferentes. O fatídico dia em que você me perdeu, eu já não sabia se o porto seguro que tive para mim, de fato, um dia existira.
O dia quando me perdeu, você ameaçou falar, eu fiz que falaria, mas ninguém falou, e por palavras mal ditas e não ditas eu estive lá, na minha cama, lembrando da voz que sempre me diz a hora de ir embora. Eu tapei os olhos e me recusei a ver. Eu te odiei por ter feito isso com a gente, eu te odiei por me fazer sentir isso de querer te deixar, eu te odiei várias vezes por abrir essa maldita mão e ter deixado eu escorrer pelos seus dedos. Eu gritei que fechasse, eu te pedi que me abraçasse e me livrasse da queda livre. Mas se aproximava a hora de ir embora, que independe de exaustões particulares e peculiares. Quando a gente se incapacita de ir, a vida empurra. Não guarde mágoas, não me empurraram. Ouvi o conselho da minha amiga, e, no dia em que você me perdeu eu sofri. Sofri por te odiar e mais ainda por me odiar, por te deixar, por te abandonar, por não dar sinais, palavras, ou o que você queria de mim. Eu sofri quando olhei para o vazio que fitava enquanto me dei conta: você me perdeu. Eu chorava enquanto repetia para mim, você me perdeu. E pela primeira vez no dia, eu senti alguma coisa, eu senti forte e dentro.
Eu aprendi. Aprendi que seja lá o que aconteça com a gente, independentemente de quem estiver ao nosso lado, é necessário sentir, todos os dias e o tempo todo, como se tivesse um gatilho armado em direção a você, te obrigando sentir uma vida inteira por todo o segundo seguinte. Não adianta sentir fraco, com medo, acuado. De nada serve sentir só para dentro, a gente precisa emanar sentimento. Então, veja bem, sinta, mas não seja egoísta, no que puder, sinta junto.
Era um clima ameno e você me perdeu. Mas nessa de me perder, quem me achou fui eu.

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A felicidade do dane-se.

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Acho que minha vida pode ser divida entre antes de conhecer Bauman e depois dele. Não por um acaso, recentemente me deparei com uma entrevista com ele, e então resolvi voltar a ler alguma coisa. Não obstante, o cara deu um show e sambou na minha cara, detonando com qualquer conceito que eu tinha sobre amor próprio. Explico: a teoria dele é que o amor próprio, genuíno, daquele jeito que gostaríamos que existisse, não existe. É isso aí, vai para o saco. Sabe todo o tempo que você passou tentando ser fiel a você e se dedicando a coisas as quais supostamente te fazem uma pessoa melhor quando você se olha no espelho? Pois bem, você na verdade usou todo esse tempo para conseguir a aprovação do outro. Basicamente, o amor próprio consiste em conseguir o amor do outro. A teoria do danado é que você só se ama quando é amado, e que gostar mais de si implica chegar a uma imagem que o pai, a mãe, o tio, o namorado, o mundo todo aprova. E eu te pergunto, é isso mesmo que você quer para você? As horas de academia são pela endorfina e felicidade extrema ou são para um ideal de beleza? Aquele comportamento polido é porque te faz feliz ser assim ou é porque todos estão vendo? Bom, nesse ponto de reflexão eu primeiro entrei em uma êxtase exasperada pela conclusão louvável. Depois parei de pensar num quase fundir mental e fui ao Starbucks, e como-todo-sábado-de-manhã pedi o bom e velho Mocha com meu bagel de sempre. Pedi o leite desnatado, para a consciência não pesar tanto (e confesso que mais uma vez o negócio do amor próprio ecoou, porquê, Deus, porquê?). Bom, me surpreendi em, ao tirar a tampa para adoçar a bebida, ter notado que tinha chantilly ali. E do que adiantava leite desnatado e chantilly? Era um oxímoro se materializando bem na minha frente. Fiquei inconformada. Pensei em tirar a gordice ali de cima, mas sabe de uma coisa? Não tirei. Gritei dane-se para minha consciência, fechei, fingi que não era comigo e zum, bebi sem pensar duas vezes. O que posso dizer sobre isso hoje? Que Mocha fica bem mais gostoso com chantilly, embora eu vá retificar da próxima vez: leite desnatado e sem chantilly. Acontece que bebendo aquilo, eu fui mais feliz. Me desapegando de uma consciência coletiva e, por vezes, bruta e rude, a coisa foi mais gostosa. Então eu percebi que o Bauman estava mesmo certo. Não se trata do que você faz para se olhar no espelho e se achar mais bonito. Não se trata daquele monte de coisa que empilhamos na gente, na tentativa de ser amado. Se trata do “dane-se”. Dane-se o que os outros pensam, se quiser gritar, grite. Quer ligar, ligue. Quer brigar, briga. Quer atravessar a paulista cantando? Atravessa. Vão te achar louco? Vão. E daí? Dane-se. Permita-se. Não precisa subir na mesa da empresa e rebolar até o chão, ser demitido ou se divorciar porque resolveu sumir por um mês já que estava cansado da vida. Não é nada disso. Mas se permita momentos de você. Permita-se não ligar muito. Ache o seu lugar, onde você pode ser você sem pensar ou se preocupar sobre o que os outros estão pensando. Não tire o chantilly da bebida se você não quer, e dane-se se a magrela orgânica do lado te olhar com cara feia por isso. Faça o que te faz sentir bem. Esteja com quem te aceita como você é. Ame a pessoa com quem você consegue ser você mesmo, sem forçar um comportamento artificial. Case com quem você consegue se divertir e confiar. Se trata de saber a ocasião e ter o controle sobre o momento certo de perder o controle. Uma amiga um dia me disse “se você tirar o mundo das costas, ele não vai acabar”. E não acabou. Sabe qual é a do amor próprio? O dane-se, seja você para você. Saiba quem você é, domine a propriocepção e abrace sua causa. Se mostre para quem você quer se mostrar, apenas. Vista vermelho, porque se você for baleado, ninguém vai descobrir. O sangue vai ficar disfarçado, e isso deixa as coisas mais fáceis, já que quem importa vai estar ali e vai saber o porquê de você estar usando vermelho. E hoje, se me perguntarem se eu sou feliz eu vou responder: Até que sou. Sou feliz socialmente.

* Foto por Malu Lima, Estocolmo, Suécia

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Linha e agulha não Machadianas

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Estava eu com algumas roupas que precisavam ser ajustadas no guarda-roupas, havia algum tempo. Pois bem, sempre prometia que iria levar logo na costureira para usá-las assim que possível, até que no fim de semana resolvi que as coisas iam mal. Não organizava minhas roupas e sapatos há algum tempo. Nem meus livros. Nem as roupas de cama, todas descasadas. Isso me deu uma agonia horrível, de como se o resto da vida fosse desandar por esse motivo e então decidi: era a hora. Aquela hora que você coloca a casa para baixo, como se fosse fazer uma mudança. Não simplesmente guardar tudo aquilo que você não quer desapegar no armário do quarto de visitas. Não, não, não…o lema passou a ser desapego. Tudo que eu olhava e brevemente me desagradava ia para o saco de doações, inclusive muitas daquelas roupas folgadas, principalmente as que eu pensei que nunca usaria, mesmo após o conserto. Enfim, não posso dizer que tudo está a mil maravilhas. Acabei tudo isso com sacolas de papel infinitas (porque raios eu guardava tanta sacola?) no chão do closet, de modo que não consigo circular, mas ganhei algum espaço livre. Aliás, ganhei espaço livre em todos os compartimentos do móvel e o processo me renovou. Sério mesmo, recomendo. O caso é que ainda sobraram quatro regatas a serem ajustadas. Como eu me conheço e sei que vou passar longe da costureira, comprei linha, agulha e fui à luta. Há tanto tempo não dava um ponto que sinto até vergonha em mencionar. Mas a última vez me lembro de ajudar minha mãe a colocar a linha na agulha. Quando era criança me julgava numa habilidade enorme de enfiar a linha na agulha. Eu me gabava com todo mundo que tinha olho de cobra, colocava a linha na agulha como ninguém. Sinto informar que o tempo passou, e eu me vi penando, que agulha é essa? Eu era profissional nisso, não era? Como assim estou demorando tanto para colocar essa linha? Pode parecer idiota, mas isso me fez sentir algo que vivo sentindo. Será que regredi? Sabe, muitas vezes paro e penso em como tomava certas decisões mais seguras e firmadas na infância. Como era uma criança responsável, que não pisava na bola e, bem, sabia colocar a linha na agulha. Fui tomada por a sensação de regressão. Mas então eu lembrei que dia desses usei uma bota que não usava há tempos. Me perguntei porque passei tanto tempo sem usá-la, e a resposta veio quando cheguei ao trabalho. Tum, tum, tum. O salto era extremamente incomodativo. ” Ah”, pensei comigo. Vez ou outra ouço alguém usar uma expressão a qual eu era acostumada, e estranho. Ou contar uma piada que eu costumava contar e rir, estranho também. Onde foram parar as partes de nós que tínhamos no passado e se perderam com o tempo? A memória que é fraca ou somos nós que não nos esforçamos suficientemente para guardar nossos pedaços favoritos de nós mesmos? Acho que são as duas coisas. Precisamos fazer força e nos lembrar o porque somos o que somos, como chegamos aqui, pelo que passamos e porque devemos nos valorizar. Não podemos esquecer das partes da batalha que doeram e como fizemos para passar por cima disso, nem quem nos ajudou a atravessar a ponte. Devemos recordar as partes ínfimas de nós, que muitas vezes são detalhes, mas acima de tudo, lembremos que de detalhes somos feitos, célula por célula, orgão por orgão, lembrança por lembrança. Então, aquele velho conhecido seu vai te encontrar e vai estranhar aquela piada que era sua cara ter sumido do repertório. Você também vai estranhar, assim como eu estranhei minhas habilidades de costura. Nossa memória é fraca. Mesmo as fortes são fracas. Quando visitei Londres pela primeira vez, decidi que era minha cidade favorita do mundo. Na segunda, me surpreendi ao relembrar várias coisas que não recordava ao mencionar a cidade Inglesa nas minhas lembranças, e me via inconformada. Mas fui, e olhei. Olhei e relembrei, fiz valer o porquê Londres continua sendo minha cidade favorita. Mesma coisa ocorreu quando dia desses, um amigo meu perdeu alguém especial. Eu disse: preste atenção para os valores que ela te passou, e não se esqueça de aplicá-los na sua vida, assim você sempre vai lembrar com carinho dela. Atenção que, com tudo isso, não digo que não vamos evoluir. Você vai mudar sim, mas é importante que carregue com você  aquilo que te faz você, e o que te faz gostar de você. Quando a gente não sabe muito bem do porquê somos apreciáveis, isso pode se perder, então se abrace, se conheça, recupere e mude quando for necessário. Puxe suas lembranças. No fim das contas, entendi o que estava acontecendo… Lembrei vagamente de quando era criança, e fiz força para provar meu talento na costura. Não foi fácil da primeira vez, mas aí descobri que a linha desfiava facilmente e isso a impedia de entrar na agulha. A culpa não era só minha. Nem da agulha. A culpa era da linha. A culpa era da vida. Mas viver é igual a andar de bicicleta, não dizem? A gente pode enferrujar, mas nunca esquece.

* Foto por Malu Lima, em Londres, UK

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Com sombra e sem dúvida

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Nessas viagens que fiz com amigos, a prece é sempre a mesma. As meninas entrando nas milhares lojas de maquiagem e os caras reclamando. Tenho um amigo que era o que menos reclamava, porém veio com um argumento diferente. Certo dia, no almoço, começou a discutir o fato de homens não gostarem de maquiagem. Odiavam olho preto, e quem dirá o batom. Não sabiam porque as mulheres gostavam tanto dessa máscara.Ontem fui passar batom e parei na frente do espelho. Foi nessas e tantas que eu comecei a pensar, nós usamos as máscaras cosméticas, mas e as outras? E aquela máscara que todas as pessoas colocam todo santo dia antes de ir para o trabalho e penduram ao chegar em casa? E aquela voz mansa que se tem diante do mundo e que vira uma voz ríspida e dura dentro de casa, depois de passar a chave? Sempre me ensinaram que a mudança começa dentro de casa, ou entre os mais íntimos. Para mim, isso não funciona. A mudança começa no seu íntimo, dentro de você, quando alguma coisa te estimula a mudar. Também acredito que mudamos com coisas e pessoas certas. Invariavelmente, com ou sem passos adiantes, cometeremos erros e, sim, vamos extravasar com aqueles que sabemos que continuarão ali, pendentes ao nosso lado. É intrínseco. É quem tem a responsabilidade sobre a gente, além da responsabilidade que carregamos sobre nós mesmos. São para essas pessoas que damos parte de nossas vidas, ou muitas vezes elas já nascem com um pedaço da gente na mão, não tem como escolher diferente.
Com a minha pressa, passei o batom e saí de casa. Deixei meus pensamentos assim, a Deus dará, quando ainda se falta algo consistente a se apegar. Chegando em casa, novamente, no fim da noite, olhei para o espelho do elevador, como faço invariavelmente (quem não faz?). Estava eu lá, mais uma vez, sem maquiagem. A questão é que no fim da noite ela sempre se foi. E adiantou perder tempo com a produção? Sim. Porque no fim, o que fica é o que atravessa a noite e te vê assim, dia após dia sem maquiagem. Quem anda do seu lado não deixa de gostar de você quando não tem batom, blush e sombra. Nem gosta menos de você quando você os usa. Quem fica te vê com o rímel borrando o rosto inteiro depois de uma longa chorada, depois de uma noite longa ou uma bebedeira qualquer. Os que ficam te oferecem um lenço e chegam a rir do seu olho de panda. Eles continuam se divertindo do seu lado, mesmo quando tudo acaba, e quando parece que as coisas chegaram ao fim.A amiga de verdade é a que te fala que tem batom no seu dente. Quando a caminhada parece acabar para você e o que te sobra é uma cara lavada, de olheiras e riscos de vida, são essas pessoas que vão te olhar e te achar linda. Audrey Hepburn dizia que nunca faria uma plástica, já que as rugas eram marcas que ela carregava da vida. Adaptando a pregação dessa que sempre admirei, te daria um conselho. Use sua máscara, adote sua maquiagem, esconda suas marcas do mundo, já que não são todos que merecem vê-las. Reduza a exposição, mas se abra com quem merece. Ignore o que te faz mal, mas perdoe o que se redimiu. Siga mostrando aos que verdadeiramente importam as histórias das cicatrizes que carrega consigo, porque toda vida guarda marcas grandemente boêmias e eternamente poéticas. Acima de tudo, pare e pense sobre o que aprendeu com cada uma delas, já que internalizar os fatos te torna conhecedor de si mesmo. Quem te aceitar assim, de cara lavada, e estiver do seu lado ao fim de cada noite não deixará dúvida: é mais uma sombra que você precisa carregar com você, com todo contraste entre qualquer luz e parede. 

 

* Foto por Malu Lima em Lisboa, Portugal

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O que não mata, engorda

2945http://www.youtube.com/watch?v=mpqdLqYYpoY

 

Acho que sou constantemente testada pela vida. Todos somos. Me coloque um cardápio na frente e pronto, tenho um AVC imediato. Posso passar horas lendo o cardápio sem decidir. E como eu decido, afinal? Me obrigando a escolher. E mais, me forço a escolher rápido, não só porque em geral tem alguém na frente esperando. A gente precisa escolher, sempre. E quando é para dividir o prato, então? Invariavelmente a educação nos obriga a colocar a decisão nas costas do outro, que joga a peteca de volta para nós, naquela coisa de ninguém querer ser responsável pelo desastre, no caso dele acontecer. Vai que fulano não gosta da pimenta daquele prato ou do bife acebolado do outro. Antes ele escolha, eu engulo. De contramão já deixo claro, assim como você fingiria bem se não gostasse da escolha do fulano, ele também sabe fingir. Quero chegar no ponto de que várias vezes ao dia somos colocados nessas encruzilhadas de não conseguir tomar decisões. Travamos e abrimos mão das nossas escolhas. Vamos direto na opinião amiga ou alheia, com medo de errar. Agora eu te pergunto, se a opinião da esquina errar, quem vai sofrer com isso? Quem vai comer a cebola crua do bife que o outro escolheu? Pois devo te falar que sim, você vai perder, uma ou várias vezes na vida. Vai sofrer, vai cair, e com certeza vai se decepcionar. Vão te trair, vão mentir para você. Você vai sim repetir o mesmo erro, vai insistir na pessoa errada, vai amar pessoas erradas que no fim não vão se tornar pessoas certas. Vai desejar que certos milagres aconteçam, mas eles nunca vão acontecer. Vai imaginar um ponto edílico no qual você provavelmente nunca vai chegar. Mas eu te garanto que quando tudo isso se concretizar você vai se sentir melhor se a decisão foi sua. Ouça a opinião, faça com suas mãos. Escolha. Erre. Deixe o erro ecoar bem fundo, até você dar risada dele. Você vai rir, eu sei disso. Vai crescer, também, deveras, se cresce com bifurcações. Vá por uma, ande por outra, conheça as duas, e viva. Erre, mas viva. Aprende. Vá de mãos dadas, vá sozinho, mas nunca deixe que decidam sua vida por você. Parta seu coração sozinho, com uma escolha sua. Vá de encontro ao espelho, bate a cabeça e quebra. Deixe quebrar. Escolha o prato errado, não tem problema. A gente nunca tem a garantia de que as pessoas continuam ali para nos ajudar a juntar os cacos e colar, um por um. Então, caso quebre, ajoelhe, junte, cole. Viva. Para então você ganhar, achar a pessoa certa, tornar o que achava errado certo, ter um milagre na sua vida e chegar em um lugar diferente do que imaginou, e que te fez mais feliz desse jeito. Você vai estar grande para escolher aquela empada de camarão terrível no boteco ali da frente, olhar adiante e morrer de rir da dor de barriga do amanhã. O que não mata, engorda.

 

* Foto por Malu Lima, em Valencia, Espanha

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Filosofias para um café

Na dúvida, tente responder. Pesquise, leia, aprenda com os outros que escreveram por já terem passado por algo parecido. Se ainda assim persistir em dúvida, construa suas próprias respostas e nunca seja egoísta o suficiente para deixá-las presas dentro das suas quatro paredes. Respostas não são fruto de teses e teorias muito complexas. Vem unica e exclusivamente da vida, bem ou mal vivida, e na busca de melhoras. Melhora implica mudança. Não tema a resposta, tão pouco a mudança. Por mais dolorida que soe a aceitação, quando não se engana, o caminho tende a ser não equivocadamente ascendente. Faça bom uso e tire seu próprio proveito. Porque a vida, meu amigo, pode parecer clichê, já que todos que estamos aqui a temos. Mas cabe a você tirá-la da zona de conforto para que ela seja boa de se viver. Agora ferva a água, coe seu café. Sente na varanda e pense no que quer fazer sobre isso. E no que vai fazer sobre isso.

 

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