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A fome das lembranças

Lembrou-se de quando era criança e apossava tudo o quanto podia na bolsa dada pela madrinha. Era uma bolsa cor-de-rosa, média, com um laço enorme bem característico. E por tudo quanto passava incluía em si. Incluía para si. Aquele sentimento de posse e de tudo certeiro em volta diagnosticava como que para sempre o que poderia ser externalizado. E, agora, se via ali. Aguardando reações, outros, destinos, mortes. A sua. Recusava o pensamento de que deveria, em algum momento, se apossar desses também. O que lhe era externo também era seu, mas, a partir do momento que se tornava seu, não lhe era mais externo. As coisas, na verdade, lhe pareciam muito mais bonitas quando encaradas de dentro para fora. De fora para dentro nunca pareciam tão vistosas e, por vezes, e quantas vezes na vida, chegou a doer e atingir pontos tão acertados da alma. Mesmo quando a alma estava vazia e diziam vozes intuitivas de que as coisas haviam de melhorar, não cessavam nunca os tiros que raspavam daqui e de lá e que faziam doer, dorzinha, dorzinha de fundo, na música que se escuta, nas memórias abafadas. Era isso que tinha para ver ainda, o abafado. Fitou o guarda-roupa de madeira envelhecida, escura, com riscos claros e dispersos em seu comprimento todo. Parecia mágico, o condão que libertaria tudo que tinha dentro. Olhou o tapete desbotado de vida, e em cada desbote conseguia ver a lembrança na matéria, toda ali, eternalizada. E quão queria eternalizar o edílico? Quem se interessaria pela vida alheia? Quem entenderia o paradisíaco dos objetos? Quem doaria parte de si por preservar aquele monte de tralhas? Pois sim, sua vida tinha virado aquele monte de tralhas. E a janela logo ali ao lado era a porta para o que vinha depois. Haveria de ser. No que se apegaria? Na luz? Haveria de ter luz? Se todos pintam e contam empolgados sobre a escuridão que vem…Sobre as vozes que cessam. Se todos preveem com orgulho uma cena de medo, um filme de terror em que se esquece de viver. Quem saberá o que será a morte enfim, a tempo de se apossar de tudo. Antes esquecer o que tiverá em vida. Vozinha diz que não. Vozinha não prevê o fim tão fim. O barranco despanca logo ali. Vozinha diz: A posse! Lembra a posse! Joga-te do barranco, agarra a posse, aquela mesma posse! Resolveu então trancar o velho armário para sempre. Agarrou tudo que era seu, desesperadamente atrás da tal posse. Jogou tudo dentro daquela bolsa cor-de-rosa que fomentava o processo. Se esqueceu do a seguir e em segundos tudo já era tão mais seu que daquele guarda-roupa cheio e trancado. O guarda-roupa tinha objetos.Aquele monstro traduzido. Ela tinha a bolsa em si. Na memória. Ela era a bolsa e levava consigo todas as lembranças do mundo. Para onde fosse, e para sempre, em um ímpeto eterno de caretas e sorrisos de momentos esquecíveis, porém, eternos naquela escuridão do sem fim.

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