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Tempo vendido

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Assisti há alguns meses o filme “O preço da amanhã”. O filme já é velho, de 2011, mas vou dar um resumo breve para situar a quem ainda não viu. Trata-se de uma época futura na qual a ciência descobriu uma forma para que as pessoas parem de envelhecer aos 25 anos, e, a partir de então, trabalham e lutam para conseguir, possivelmente, um merecido tempo de vida. Os ricos têm muito tempo, os pobres quase nada, os ricos tiram dos pobres, ou seja, pode-se dizer que na ficção o tempo é tido como moeda de troca. Lembrei desse filme hoje, enquanto comia minha salada. Pedi salada, frango desfiado, purê de batata doce e suco de melão. Me orgulhei de ter optado por algo saudável, e pensei comigo, ainda bem que inventaram esses serviços delivery fitness, o que seria de mim? Não teria tempo de preparar uma refeição dessas, imagina, seria o tempo de desfiar o frango. Pois bem, o insight veio: comprei meu tempo.
Vende-se muito, mas muito do que se vende é exatamente isso: tempo. Me vi assustada com o fuá da nossa estrutura social. Como fora, não tenho tempo de ir ao mercado, de preparar a comida ou lavar louça. Estou sem tempo, não rola de limpar a casa, vou chamar a faxineira. Não há tempo de ir ao banco, de lavar a roupa, tirar o lixo, fazer compras, levar os filhos para a escola, trocar uma lâmpada, pedir o gás, comprar um filtro novo, passear com o cachorro, levar o sapato para arrumar. E então, o que fazemos em relação a todas essas coisas as quais seríamos bem capazes de fazer? Pagamos a quem o faça. Compramos o tempo de alguém, geralmente por pouco, muito pouco. E então, enquanto você curte a vida na Polinésia Francesa ou simplesmente trabalhando com o que gosta, tem alguém deixando a vida passar por uma gorjeta qualquer e fazendo o que você chama de serviço sujo.
Foi ignorante da minha parte não ter notado, a príncipio, a essência de uma ficção a qual julguei simplesmente como um romance bobo, porque esse não é um futuro longíquo: nós vivemos na era em que o tempo virou produto e também moeda. Muitas pessoas vivem da venda do seu próprio tempo, o que é triste. Sim, elas precisam disso para sobreviver, precisam desse dinheiro e desse trabalho, mas ao fim de tudo, é isso mesmo? Será que elas realmente gostam disso ou é apenas questão de necessidade? É um tempo perdido ou um tempo vendido? Tempo vendido é a mesma coisa que tempo perdido? Depende.
A história vai além. Ainda existem as opções gourmetizadas das coisas. Paga-se para comer em um restaurante por prazer, para ir em um museu, para aprender um novo idioma. Paga-se pelos bons tempos e para quem viva por você os tempos ruins. Que tipo de pessoas viramos então? Semi-pessoas, pessoas divididas ao meio, jogamos a outra metade fora. Nos tornamos o tipo de ser humano que despreza o prazer pela vida e eleva padrões que não devem ser elevados: levar seus filhos para a escola não é, de forma alguma, menos importante do que levá-los ao melhor lugar do espetáculo de ballet na temporada Russa. Pelo contrário. Você vai criar pessoas melhores se estiver lá, esperando o portão abrir e mostrando que faz questão da sua educação e dos seus problemas cotidianos, afinal, os filhos também precisam saber que você se importa. Aliás, eles precisam ter certeza disso. Você só vai ter uma casa menos empoeirada quando realmente aprender a limpar, e ninguém vai explicar ao sapateiro como você quer, exatamente, o verniz retocado. Ninguém vai viver a sua vida por você como você mesmo faria, e sabe porquê? Porque estão todos preocupados com suas próprias vidas e com seu próprio tempo perdido/vendido.
Então, trabalhe, e em algum momento você vai mesmo precisar comprar seu tempo e também vendê-lo. Mas venda fazendo aquilo que goste, e compre quando realmente julgar necessário. Abrace seus filhos, ensine alguém a andar de bicicleta, encontre sua irmã para um café, prepare seu próprio café, vá ao mercado, leve seu primo ao parque do prédio, tome conta do seu avô. Porque nessa de vender e comprar, tem sempre vida se perdendo, e guarde esse segredo: ela é sua e ela passa.

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Quando você me perdeu

Eu fechei os olhos e desejei estar em uma varanda de qualquer ruela em Viena, observando o papo furado dos turistas logo embaixo. Eles falariam sobre o Danúbio, Mozart, ópera. É o que sempre falam. Mas eu não estava lá, eu só me imprimia por dentro, vãs tentativas de não compreensão. Eu estava sentada na minha cama, cobrindo meus olhos, que estavam molhados, mas eu não chorava. Era só aquele tipo de notícia que você constata, e é dura, mas de tão dura que é te faz encará-la na hora, na vida, no chão, como for, e numa dessas eu fechei os olhos em uma tentativa desesperada de não enxergar. Mas meu amor, era a hora. Eu queria o frio, e o clima estava ameno. Eu queria você, mas foi naquele fatídico dia, e não teve escape, desculpa ou o menor jeito. E então, você me perdeu, não foi?
No dia em que você me perdeu, era clima de uma estação. Minha pele não sentia nada específico, porém. Eu acordei indiferente, e isso não é bom, porque em alguns momentos da vida já aprendi que a gente precisa sentir o tempo todo, amor, amizade, ódio, fúria, calor, frio, o que seja. Mas eu não sentia, e então liguei para uma amiga, na incapacidade de sentir, sofra, ela me disse. Eu precisei de você, assim como preciso em vários momentos do dia. Eu precisava contar qualquer coisa banal, precisava de você no sofá, no quarto ao lado, contando uma piada ridícula ou me consolando com uma conversa boa sobre um dia ruim, mas você não estava lá.
O dia quando você me perdeu, tocava The Beatles na 100,3 FM, eu abri a janela do carro para respirar melhor, reclamava dessa falta de ar subjetiva há algum tempo. Eu fui trabalhar, comi um pão na chapa, e na ansiedade de qualquer vazio que viria no momento seguinte, tomei ao menos quatro copos de café sem açúcar. Sentei em várias cadeiras, e sentia que iria quebrar todas elas, com o peso que carregava.
Eu passei aquele dia inteiro relutando contra forças internas que eu nem ao menos sabia que conhecia. Eu me distraí com qualquer primavera da rua, e também tentei sorrir, sem êxito, sem rir, nem chorar, nem sofrer, nem sentir. O dia em que você me perdeu, ventou. Ventava bastante, e de noitinha fui fazer uma caminhada, eu te disse, não? Mas sua resposta eram apenas palavras, e suas preocupações sempre foram para dentro, nunca para fora. Naquele dia, suas palavras passaram a ser para dentro, também. Era tudo para dentro, toda decisão sobre você, lembra?
No dia em que você me perdeu, o vento, a exaustão, o corte que fiz no meu dedo cortando batata no almoço, não me fizeram sentir. O sereno não me comoveu, não existia sofrimento, eram boas lembranças e muito vazio. E meu amor, como estivemos vazios, não foi? Como nos faltaram palavras, músicas, danças, filmes, mãos. Como nos escapou a vida no meio de tanto sentimento? De repente os carros passavam e estavam parados, pessoas falavam caladas, olhares suplicavam indiferentes. O fatídico dia em que você me perdeu, eu já não sabia se o porto seguro que tive para mim, de fato, um dia existira.
O dia quando me perdeu, você ameaçou falar, eu fiz que falaria, mas ninguém falou, e por palavras mal ditas e não ditas eu estive lá, na minha cama, lembrando da voz que sempre me diz a hora de ir embora. Eu tapei os olhos e me recusei a ver. Eu te odiei por ter feito isso com a gente, eu te odiei por me fazer sentir isso de querer te deixar, eu te odiei várias vezes por abrir essa maldita mão e ter deixado eu escorrer pelos seus dedos. Eu gritei que fechasse, eu te pedi que me abraçasse e me livrasse da queda livre. Mas se aproximava a hora de ir embora, que independe de exaustões particulares e peculiares. Quando a gente se incapacita de ir, a vida empurra. Não guarde mágoas, não me empurraram. Ouvi o conselho da minha amiga, e, no dia em que você me perdeu eu sofri. Sofri por te odiar e mais ainda por me odiar, por te deixar, por te abandonar, por não dar sinais, palavras, ou o que você queria de mim. Eu sofri quando olhei para o vazio que fitava enquanto me dei conta: você me perdeu. Eu chorava enquanto repetia para mim, você me perdeu. E pela primeira vez no dia, eu senti alguma coisa, eu senti forte e dentro.
Eu aprendi. Aprendi que seja lá o que aconteça com a gente, independentemente de quem estiver ao nosso lado, é necessário sentir, todos os dias e o tempo todo, como se tivesse um gatilho armado em direção a você, te obrigando sentir uma vida inteira por todo o segundo seguinte. Não adianta sentir fraco, com medo, acuado. De nada serve sentir só para dentro, a gente precisa emanar sentimento. Então, veja bem, sinta, mas não seja egoísta, no que puder, sinta junto.
Era um clima ameno e você me perdeu. Mas nessa de me perder, quem me achou fui eu.

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O coração fica

Vou propor uma experiência: entrelace suas mãos. Agora aperte firme, e as deixe assim, por um momento, abraçadas. Fique assim por alguns minutos e, enquanto isso, vamos conversar. Eu sei que você nunca mais vai ver o Manoel, que a Pri está na China sem data para voltar. Eu sei que você acredita piamente que aquela pessoa foi o amor da sua vida, e esse mesmo amor se esvaiu. Também sei que você se culpa por isso, pelo que pode ter sido e não foi; você culpa seu orgulho, e também o fato de não ter escancarado seu peito e falado tudo que gostaria de ter dito.
Eu sei que o mundo grita aos sete ventos para você falar o que sente, que isso alivia a alma, e mesmo assim você não consegue ver o fim da boiada dessa linha de raciocínio. E então você se sente um perdedor solitário e orgulhoso, e fica aí pensando no que deveria ter sido, depois de se sentir abandonado pelo mundo. Eu sei que você sente que a vida esqueceu de você em prol de protagonistas os quais você nem conhece, e também já sei que você grita com ela às vezes, se perguntando porquê. Porque, Deus?
Porque você acreditou de novo, se deixou levar, quebrou a cara? Porque confiar, se abrir, ajudar, dar o melhor de si? Vamos, lembre das mãos, aperte mais um pouco.
As pessoas vão embora, elas precisam ir embora, todo mundo precisa. Você vai se abrir sem ser correspondido, você vai acreditar que achou alguém que não vai te abandonar e ainda assim ser abandonado. Às vezes as pessoas escolhem ir, outras vezes a vida leva. Há ainda os momentos em que a vida opta por nos levar das pessoas, e nada explica isso. Nós temos planos maiores, e tudo tem sua história natural.
Então, o que te resta é entender que o amor acaba, amizades terminam, pessoas vão, voltam, ficam e se vão de novo. Você vai se sentir abandonado a ponto de se enterrar na cama e ouvir a playlist mais fossa do mundo, e vão haver dias piores. E então, aperte mais um pouco as mãos.
Você vai ser ignorado, vai se sentir pisado. Em alguns momentos as coisas vão dar errado, e depois certo, e depois errado. Você vai botar mais fé nas coisas do que deveria. Vai engordar e vai emagrecer. Vai ter momentos de bem com seu cabelo e em certas horas vai querer raspá-lo. Você vai para Paris e esquecer de fazer alguma coisa que queria ter feito.
Um dia vai achar lindo as formigas juntinhas andando a Deus dará, e no dia seguinte vai odiar uma formiga pelo vergão na perna. Você vai amar a vida e também vai praguejá-la. Vai cantar sua música favorita até arranjar uma nova, porque a antiga não cabe mais, nem faz mais sentido.
Você vai dormir e vai acordar. Já sente suas mãos formigando? Já parou de senti-las? Então solte. Sinta como elas estão travadas, como elas travaram enquanto estavam juntas. Agora sinta como a circulação se recupera quando se soltam. Comece a sentir novamente, chega a doer essa recuperação, não? Mas ela volta, tá? Assim como a gente, ela volta a sentir, a mexer, a te ajudar a viver. Você não vai perder a mão, nem o braço, nem mais nada, assim que se lembrar: as coisas precisam se desprender para chegar a certos pontos.
Assim como quando você largou as mãos, as pessoas precisam viver outras coisas, elas se vão, se desprendem. Dói, dói um bocado, mas quando alguém te pedir liberdade, não hesite, deixe ir. Experimente a dor até parar de senti-la, a dor é necessária, bem como o amor. Grandes amores só são inesquecíveis quando não totalmente vividos e esgotados. Pois bem, deixe ir e vá também, você precisa se encontrar. Sua mão vai ficar bem, e você também.
Seu coração um dia vai parar de bater mas, por agora, ainda bate. Então faça jus a cada batimento, enquanto não falta nenhuma parte de você aí dentro.

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O tal nó da Solidão

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Um dos meus livros favoritos do Garcia Marquez é “Eu não vim fazer um discurso”. De fato os discursos dele nunca foram discursos, e sim obras-primas. Dentre os tantos, parte em especial de um deles me toca. Trata-se do discurso feito sobre a solidão da América Latina, na Suécia, em 1982, no qual certo ponto ele diz: Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência dos recursos convencionais para tornar a nossa vida acreditável. Este é, amigos, o nó da nossa solidão.
Esse trecho sempre me arrepia. Qual o nó da solidão Brasileira? Seria o mesmo da América Latina toda? Acho que temos semelhanças, mas pedimos diferente à nossa imaginação. Compensamos a dor com carnaval, futebol, brigadeiro de colher, de granulado, de copinho, do que for, e agora até gourmet. Com pão de queijo, pinga 51, caipirinha, capiroska e todas as variáveis possíveis. Compensamos com bossa nova e samba, porque não dizer um sorriso no rosto, sempre. Compensamos de forma acolhedora.
Gabriel cita no mesmo discurso nossas mortes cotidianas, as quais enfrentamos com a mesma imaginação. E porquê não haveríamos de enfrentar? Eu, se fosse você, adotaria para a vida essa teoria de tornar a vida acreditável com a imaginação. Partes de nós morrem a todo o tempo. Perdemos tempo, perdemos coisas e perdemos pessoas. Perdemos amizades, sorrisos e amores.
Em compensação, tem sempre o samba da esquina regado a qualquer cerveja que gele a alma. Tem a bossa nova tocando no radinho retrô do vizinho, temos Copacabana, temos filmes e temos dança no pé. Temos amigos outros, que fizemos com nosso sorriso, amores outros, que ganhamos com nossa lábia, malandragem que herdamos da dialética de qualquer sargento de milícias, temos heranças a mil. Temos bons livros, Chico, Djavan, Renato ou um Rock internacional qualquer no Pub mais próximo. Temos tudo que queremos na ponta dos dedos, o que falta é movê-los.
Para tornar a vida acreditável, não precisamos abandonar o nó da solidão. Garcia Marquez no ensina que é melhor tirar o que há de melhor nela. Então, se está sozinho, olhe para dentro. Para frente há ainda muita vida, que ganhamos com nossa imaginação. Então não a deixe morrer, nunca.

*Foto por Malu Lima em Lisboa, Portugal 11/2013

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Entre a imitação e o Agnóstico

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Fui ontem assistir ao múltiplo indicado ao Oscar “O jogo da Imitação”. Dentre o roteiro sedutor, 2ª Guerra, Criptografia, Aliados, e uma super máquina alemã de transmissão de dados criptografados, o protagonista se destaca por sua personalidade peculiar, como a de todo gênio que se preste, e sua genialidade em desenvolver uma máquina tão ou mais capaz que a alemã. A essência dessa história baseada em fatos reais é maravilhosa, mas um ponto em especifico me chamou a atenção.
Alan Turing, em um dado momento, é tido como pacifista universitário, tendo sua capacidade de lidar com a Guerra subestimada, apesar de ser o melhor matemático da época. A essa insinuação respondeu: Não era contra a violência, era um Agnóstico da violência. De fato, constatação brilhante. Em certo ponto do filme, Turing é obrigado a esconder as informações que duramente conseguiu interceptar do exército alemão para que esse não suspeitasse de que as tinha e mudassem os códigos de criptografia. Essa atitude levaria ao afundamento de um navio de carga da Inglaterra e, consequentemente, a morte de muitas pessoas. Sua decisão, porém, foi esconder o fato de que as tropas alemãs iriam se aproximar e, assim, impedir a defesa Inglesa. A justificativa foi que a morte daquelas pessoas era necessária para vencer a guerra e salvar tantas outras vidas a mais.
Decisão difícil, não? Tipo de decisões que tomamos todos os dias, não da mesma magnitude mas nas pequenas coisas. Hoje percebo que não sou contra mentirosos, sou agnóstica da mentira. Quem nunca contou a tal mentira do bem? Quem não tentou poupar o outro? Não sou contra o ódio, sou agnóstica a ele. O ódio às vezes cresce para nos proteger. Não sou contra a trapaça, sou agnóstica a ela. Trapaça às vezes salva vidas. Não sou contra paixões vazias, amizades superficiais e sorrisos falsos. Sou agnóstica a isso tudo. Por mais vazias que sejam, preenchem em dado momento qualquer espaço provisório e paliativo, que estava realmente precisando daquilo.
Não sou contra esmolas, não sou contra discussões, brigas, refrigerante, drogas, manifestações violentas, vidas vazias, espaços em branco e canetas sem tinta.
Bom, não é segredo para ninguém que a Inglaterra ganhou a guerra. Turing se tornou uma das maiores mentes de guerra da história. E eu? Descobri dentro de mim uma agnóstica nata.

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Sobre os outros

Não me surpreendi quando saiu a lista dos indicados ao Oscar desse ano, principalmente ao ver as tantas indicações de O Grande Hotel Budapeste. A primeira vez que tive conhecimento desse filme foi por uma sinopse e um cartaz que me atraíram por um minimalismo bonito, sutil e sugestivo. A vida vive ensinando que o minimalismo ressalta as coisas, não é? Assim que tive a oportunidade, assisti, e não me decepcionei. Todo o cenário que Wes Anderson armou volta para uma atenção maior a um roteiro aparentemente simples, mas que trás consigo uma história intrigante e, como não poderia deixar de ser, lições de vida.
O filme se passa em 1932, e entre cenas hilárias, dramáticas, roubos, conflitos de inocência e paradigmas de certo e errado destaca-se um tema que, ao meu ver, é cada vez mais colocado em xeque: fidelidade. Gustave é gerente máximo do Hotel, e demanda um treinamento intensivo a Zero, seu fiel aprendiz. Não faltam desqualificações pessoais para o gerente: mulherengo nato, competitivo, por vezes egoísta e ambicioso. Zero, por outro lado, é capaz de olhar para o mestre e captar sua melhor parte, sempre, a ponto de lhe prestar uma fidelidade a qual está em falta no mundo. Essa é a parte comovente.
Obviamente o conjunto atingiu um esplendor remoto. Acontece que me fez pensar. Em um mundo ligado no sim e no não, no certo e errado, entre extremos bem distantes e opiniões duras somadas a julgamentos extremos, tornamo-nos incapazes de ver o lado bom das coisas. Fulano errou, fulano acabou. O rapaz é visto como mal caráter e desprovido de alma ou sentimentos. Pergunte se alguém se coloca no lugar do fulano? Não. As pessoas se tornam cada vez mais descartáveis por não serem perfeitas de bondade, e eu pergunto, quem é? Será que olhamos para o próprio umbigo e enxergamos nosso lado ruim? O lado que sente inveja, o lado fútil, egoísta? Não esconda ele não, eu sei que existe. Todos sabemos, mas ignoramos, julgamos, ignoramos, em qualquer ordem que seja, para qualquer ciclo vazio.
As pessoas carregam cada vez mais traumas de pessoas ruins e apagam de si as lembranças boas e aprendizados que levaram dessas mesmas pessoas. Todo mundo tem algo a oferecer e a ensinar.
Desculpe o spoiler, mas Zero acaba feliz. Ele não se torna um mulherengo, ele não é um ambicioso dos mais egoístas, ele é um dos personagens mais puros de espírito que já vi no cinema. Nada parecido com Gustave, certo? Mas ainda assim levou o tudo de bom que foi capaz de reconhecer no chefe, fez dele seu mestre e daí partiu sua própria vida. Quando não ter o que criticar, olhe para frente. Antes de julgar, reconheça o que te desperta aquele mesmo lado ruim. Na falta do que aprender, aprenda o outro.

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Aquela sua parte que ama

Assisti ao filme “Her”, traduzido para o português como “Ela”, no último fim de semana. O filme basicamente se passa entre um protagonista e dois amores, sendo um deles um amor real e outro virtual. Foi assim que eu encarei a situação até os primórdios de final. Se você ainda não viu o filme e não quer spoilers, pare por aqui. O protagonista Theodore tem dificuldade de se desapegar da ex esposa, tem sonhos e lembranças constantes dos momentos bons do antigo casamento e lida com os obstáculos de se envolver com outra pessoa. Acho que disso temos todos um pouco, o medo de se envolver de novo, a preguiça de começar do zero, de um tira e coloca daquelas máscaras inúteis que todos nós usamos e não sabemos ao certo de onde tiramos e quando perdemos. Pior que isso, o medo de gostar, e quando se gosta, o medo de perder, e se não perde, o medo de ficar inseguro. Amar é tão difícil e tão incrivelmente proveitoso e intenso em todas as partes do processo, não é? Mas Theodore não esperava encontrar seu novo amor em um sistema operacional moderno e sentimentalmente tão ou mais capaz que um ser humano. Samantha, o tal sistema operacional, não só sentia como sentia muito. Era capaz de sentir amor e paixão por vários usuários ao mesmo tempo, de expandir seu conhecimento e seu amor em progressão geométrica e demonstrar  uma nobilidade e gentileza de sentimentos que não vemos nos seres humanos. Nós somos egoístas. A construção de nossa segurança em um relacionamento se baseia na exclusividade do sentimento: você só se sente seguro entre quatro paredes de um único coração no qual só cabe você. Inconscientemente compete com amores presentes e passados, sejam eles quais for, compete com a mãe, o pai, o amigo, o ex. E daí se o pobre coitado ainda ama as lembranças do ex? Porque nos tornamos e, principalmente, nos vetamos tão intensamente em expandir e acrescentar amores em nossa vida? Porque todo ex tem que ser, obrigatoriamente, um sinônimo invariável de mágoa e assunto proibido?
O filme me agradou tanto por que ao fim dele (e eu não vou contar o fim), Samantha ama a tantos, e Theodore a outros tantos. Acima disso, cada um preserva o amor pelo o outro e antes desse, o amor por eles mesmos. As lembranças de Theodore em relação a Samantha, que não era bem uma pessoa, eram lembranças dele. De como ele era feliz com ela, de como esse amor o deixava livre para ser quem ele quisesse perante os olhos de qualquer um. Com ela, ele não se sentia julgado, pelo contrário: ele estava livre de outro corpo que eventualmente o aprisionaria. E de volta, por mais que quisesse, ele não podia aprisioná-la. Eram dois livres se amando. Então tive um insight: Mais do que amar Samantha, Theodore amava o seu eu enquanto a amava. Amou o quanto ele dançava, o quanto rodopiava, ria, se divertia e a divertia. E esse amor é saudável, e dele provém a segurança. Esse tipo de amor livre reduz qualquer medo de perda, e dismistifica a velha história de que o medo de perder faz perder. De fato o faz, mas e se não existir medo?
Em resumo, o amor só é amor quando te faz ser aos seus olhos uma pessoa melhor. Você gosta mais de você desse jeito, é uma imagem melhor de si. O amor só é amor quando você consegue ser exatamente aquilo que te faz olhar no espelho e se agradar do que é. Amor é amor quando você aprende a amar a você a ao outro, e justamente por isso sabe que se perder ao outro, eventualmente, uma das partes nunca vai sair dali, porque está em você, faz parte do combo. O amor é genuíno, entra devagar, não faz barulho, nem alarde. Ele dança no ritmo, ele é leve, não é para ser difícil, é tão espontâneo. Quando se ama de verdade, livre, se ama certo. E o jeito certo de amar é amando a todos, porque amor que é amor não vive entre quatro paredes e nem se divide em dois corações: ele se expande e te torna sempre alguém melhor. Essa é a parte que não se perde, e essa é a lembrança que deve ser perpetuada. A cada novo amor acrescente a você novas facetas que te fazem amar mais. Terminou o namoro? Não mate os restos de ex que tem em você, também são partes suas. Deixe aí, acrescente o que te faz bem. Quem você se tornou amando? já sabe? Então agarre, não foge. Essa parte não se perde, essa aí para sempre se ama e será para sempre sua, seu medroso.

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A felicidade do dane-se.

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Acho que minha vida pode ser divida entre antes de conhecer Bauman e depois dele. Não por um acaso, recentemente me deparei com uma entrevista com ele, e então resolvi voltar a ler alguma coisa. Não obstante, o cara deu um show e sambou na minha cara, detonando com qualquer conceito que eu tinha sobre amor próprio. Explico: a teoria dele é que o amor próprio, genuíno, daquele jeito que gostaríamos que existisse, não existe. É isso aí, vai para o saco. Sabe todo o tempo que você passou tentando ser fiel a você e se dedicando a coisas as quais supostamente te fazem uma pessoa melhor quando você se olha no espelho? Pois bem, você na verdade usou todo esse tempo para conseguir a aprovação do outro. Basicamente, o amor próprio consiste em conseguir o amor do outro. A teoria do danado é que você só se ama quando é amado, e que gostar mais de si implica chegar a uma imagem que o pai, a mãe, o tio, o namorado, o mundo todo aprova. E eu te pergunto, é isso mesmo que você quer para você? As horas de academia são pela endorfina e felicidade extrema ou são para um ideal de beleza? Aquele comportamento polido é porque te faz feliz ser assim ou é porque todos estão vendo? Bom, nesse ponto de reflexão eu primeiro entrei em uma êxtase exasperada pela conclusão louvável. Depois parei de pensar num quase fundir mental e fui ao Starbucks, e como-todo-sábado-de-manhã pedi o bom e velho Mocha com meu bagel de sempre. Pedi o leite desnatado, para a consciência não pesar tanto (e confesso que mais uma vez o negócio do amor próprio ecoou, porquê, Deus, porquê?). Bom, me surpreendi em, ao tirar a tampa para adoçar a bebida, ter notado que tinha chantilly ali. E do que adiantava leite desnatado e chantilly? Era um oxímoro se materializando bem na minha frente. Fiquei inconformada. Pensei em tirar a gordice ali de cima, mas sabe de uma coisa? Não tirei. Gritei dane-se para minha consciência, fechei, fingi que não era comigo e zum, bebi sem pensar duas vezes. O que posso dizer sobre isso hoje? Que Mocha fica bem mais gostoso com chantilly, embora eu vá retificar da próxima vez: leite desnatado e sem chantilly. Acontece que bebendo aquilo, eu fui mais feliz. Me desapegando de uma consciência coletiva e, por vezes, bruta e rude, a coisa foi mais gostosa. Então eu percebi que o Bauman estava mesmo certo. Não se trata do que você faz para se olhar no espelho e se achar mais bonito. Não se trata daquele monte de coisa que empilhamos na gente, na tentativa de ser amado. Se trata do “dane-se”. Dane-se o que os outros pensam, se quiser gritar, grite. Quer ligar, ligue. Quer brigar, briga. Quer atravessar a paulista cantando? Atravessa. Vão te achar louco? Vão. E daí? Dane-se. Permita-se. Não precisa subir na mesa da empresa e rebolar até o chão, ser demitido ou se divorciar porque resolveu sumir por um mês já que estava cansado da vida. Não é nada disso. Mas se permita momentos de você. Permita-se não ligar muito. Ache o seu lugar, onde você pode ser você sem pensar ou se preocupar sobre o que os outros estão pensando. Não tire o chantilly da bebida se você não quer, e dane-se se a magrela orgânica do lado te olhar com cara feia por isso. Faça o que te faz sentir bem. Esteja com quem te aceita como você é. Ame a pessoa com quem você consegue ser você mesmo, sem forçar um comportamento artificial. Case com quem você consegue se divertir e confiar. Se trata de saber a ocasião e ter o controle sobre o momento certo de perder o controle. Uma amiga um dia me disse “se você tirar o mundo das costas, ele não vai acabar”. E não acabou. Sabe qual é a do amor próprio? O dane-se, seja você para você. Saiba quem você é, domine a propriocepção e abrace sua causa. Se mostre para quem você quer se mostrar, apenas. Vista vermelho, porque se você for baleado, ninguém vai descobrir. O sangue vai ficar disfarçado, e isso deixa as coisas mais fáceis, já que quem importa vai estar ali e vai saber o porquê de você estar usando vermelho. E hoje, se me perguntarem se eu sou feliz eu vou responder: Até que sou. Sou feliz socialmente.

* Foto por Malu Lima, Estocolmo, Suécia

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Com sombra e sem dúvida

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Nessas viagens que fiz com amigos, a prece é sempre a mesma. As meninas entrando nas milhares lojas de maquiagem e os caras reclamando. Tenho um amigo que era o que menos reclamava, porém veio com um argumento diferente. Certo dia, no almoço, começou a discutir o fato de homens não gostarem de maquiagem. Odiavam olho preto, e quem dirá o batom. Não sabiam porque as mulheres gostavam tanto dessa máscara.Ontem fui passar batom e parei na frente do espelho. Foi nessas e tantas que eu comecei a pensar, nós usamos as máscaras cosméticas, mas e as outras? E aquela máscara que todas as pessoas colocam todo santo dia antes de ir para o trabalho e penduram ao chegar em casa? E aquela voz mansa que se tem diante do mundo e que vira uma voz ríspida e dura dentro de casa, depois de passar a chave? Sempre me ensinaram que a mudança começa dentro de casa, ou entre os mais íntimos. Para mim, isso não funciona. A mudança começa no seu íntimo, dentro de você, quando alguma coisa te estimula a mudar. Também acredito que mudamos com coisas e pessoas certas. Invariavelmente, com ou sem passos adiantes, cometeremos erros e, sim, vamos extravasar com aqueles que sabemos que continuarão ali, pendentes ao nosso lado. É intrínseco. É quem tem a responsabilidade sobre a gente, além da responsabilidade que carregamos sobre nós mesmos. São para essas pessoas que damos parte de nossas vidas, ou muitas vezes elas já nascem com um pedaço da gente na mão, não tem como escolher diferente.
Com a minha pressa, passei o batom e saí de casa. Deixei meus pensamentos assim, a Deus dará, quando ainda se falta algo consistente a se apegar. Chegando em casa, novamente, no fim da noite, olhei para o espelho do elevador, como faço invariavelmente (quem não faz?). Estava eu lá, mais uma vez, sem maquiagem. A questão é que no fim da noite ela sempre se foi. E adiantou perder tempo com a produção? Sim. Porque no fim, o que fica é o que atravessa a noite e te vê assim, dia após dia sem maquiagem. Quem anda do seu lado não deixa de gostar de você quando não tem batom, blush e sombra. Nem gosta menos de você quando você os usa. Quem fica te vê com o rímel borrando o rosto inteiro depois de uma longa chorada, depois de uma noite longa ou uma bebedeira qualquer. Os que ficam te oferecem um lenço e chegam a rir do seu olho de panda. Eles continuam se divertindo do seu lado, mesmo quando tudo acaba, e quando parece que as coisas chegaram ao fim.A amiga de verdade é a que te fala que tem batom no seu dente. Quando a caminhada parece acabar para você e o que te sobra é uma cara lavada, de olheiras e riscos de vida, são essas pessoas que vão te olhar e te achar linda. Audrey Hepburn dizia que nunca faria uma plástica, já que as rugas eram marcas que ela carregava da vida. Adaptando a pregação dessa que sempre admirei, te daria um conselho. Use sua máscara, adote sua maquiagem, esconda suas marcas do mundo, já que não são todos que merecem vê-las. Reduza a exposição, mas se abra com quem merece. Ignore o que te faz mal, mas perdoe o que se redimiu. Siga mostrando aos que verdadeiramente importam as histórias das cicatrizes que carrega consigo, porque toda vida guarda marcas grandemente boêmias e eternamente poéticas. Acima de tudo, pare e pense sobre o que aprendeu com cada uma delas, já que internalizar os fatos te torna conhecedor de si mesmo. Quem te aceitar assim, de cara lavada, e estiver do seu lado ao fim de cada noite não deixará dúvida: é mais uma sombra que você precisa carregar com você, com todo contraste entre qualquer luz e parede. 

 

* Foto por Malu Lima em Lisboa, Portugal

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O amor na geração Y

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Um dia eles vão perceber. Um dia vão notar toda essa sua grandeza. Eu queria que antes você apenas olhasse em volta e observasse a geração coca cola abrindo alas para essa nova que vem aí. Gostaria de te apresentar a geração orgulho, cheio de mocinhos e mocinhas de pé atrás, reclamando e tentando achar causas por não terem um par, por nada dar certo. Não tem gente decente no mundo, tem? Não existe mais tampa da panela. Sortudo daqueles que acharam, não é? Olha a baita da sorte que fulano, quando menos pensava que acharia alguém, pimba! Achou. Ouço as pessoas dizerem que você só encontra o amor da sua vida quando para de procurar. Eu discordo. Acredito que estamos vivendo uma geração amorosa peculiar, em que sair por baixo é feio. As mulheres lutam contra o machismo e ainda querem que o homem sempre tome uma atitude. O homem não entende bem dessa forma. A verdade é que os tais sortudos fazem pouco caso. É bem assim, não supervalorizam nada, deixam rolar, sem ansiedade. Aqueles ditos com sorte não ficam medindo atitudes aqui e ali, e não ficam preocupados com o alface no dente do primeiro encontro. Aliás, eles podem ir no primeiro encontro de all star e esmalte descascado, porque não faz a menor diferença. E daí? É o primeiro encontro, não o casamento. Esses tipos não fazem tipo, eles sabem que se não der certo o mundo não vai acabar. Geralmente, têm o mínimo de auto estima para sua preservação de modo que acreditam: estão no direito de experimentar, de selecionar e caso o par da vez seja errado, ele não é o último do mundo. Ah, e tem o pé na bunda. Se levar, vai morrer? Não. A notícia é que não está errado pensar assim. Vivemos a geração dos vinte e poucos anos, em que todo mundo aqui já foi desprezado alguma vez na vida. Caímos de cara com a pessoa errada, dizemos que amamos uma ou duas pessoas a vida inteira, temos sete pés e meio atrás com qualquer experiência nova embora, no fundo, todo mundo guarde a esperança de achar o seu e ir para o altar um dia. De tanto se decepcionar, nosso orgulho, já inflado pelas tantas conquistas que temos ou que eventualmente nossos pais conseguiram pela gente (ou fizeram a geração Y acreditar que mereciam), bate alto. Bem alto. Ele fala que já chega, que feio todo mundo pensar que você está sozinho, ou tomou um fora, ou está na bad por um mal amor. Ele te faz pensar que você vai se sair melhor quando fizer sofrer, e não ser o sofredor. Pior, as pessoas tem que acreditar que você saiu por cima, senão ele não se satisfaz. Seu medo de cair de cara e sofrer de novo é tão grande, que você olha o mundo com maus olhos: cada qual do sexo oposto é candidato perfeito para te empurrar do precipício. Quer saber de dois segredos agora? O primeiro é que o precipício foi você quem criou. O segundo é que todo o resto está na mesma. E portanto, ninguém vai se aproximar de ninguém genuinamente. A galera não está a fim de bater um papo e tomar uma cerveja. As meninas vão acreditar que são apenas segunda intenção. Os caras nunca vão achar alguém suficiente para se esforçar. Todo mundo na fé de que ninguém presta. E eu te pergunto, você presta? Ou você, geração Y, ainda está nessa birrinha com a vida de desafiar o mundo e gritar aos quatro ventos “eu sou um heart breaker e quero ver alguém que preste aparecer!”? Já te adianto que eu também sei que no escurinho da sua cama você chora e cruza os dedos para a vida te dar uma boa pessoa de presente. Uma boa pessoa que descomplique, que te dê calma e paz de espírito, porque você cansou de tanta turbulência. Mas não, ela não vai dar. Você vai continuar fingindo que não está procurando, na esperança de encontrar a pessoa certa, e não, você não vai achar. A gente não gosta do descomplicado, a gente quer o desafio. Não dá para descomplicar quando o nó está na gente. Então comece desfazendo esse laço aí de dentro. Uma amiga minha fala que não tem a menor vergonha de tomar um pé na bunda e de falar que tomou. E ela está certa, não há vergonha nisso quando você se valoriza. Descomplique. Descontraí. Vá se divertir, e não á caça. Vá jantar, e pode comer uma coxinha bem gordurosa com alho na balada, que se for o seu dia, vai ser. Tenha segurança em você, selecione, o babaca ao lado não é o último cara que você vai conhecer na vida. E se ele parece um chato, ele é um chato, não pense que vai transformar ninguém. Porque a vida não dá presentes para heart breakers envergonhados de si e de suas desilusões amorosas. Sobre essas desilusões, elas te ajudam a crescer e te fazem ganhar experiencia. São as lágrimas que empurram sua maré para onde ela está agora, então aproveite e vá na onda. Cresça, e dê o laço no lugar certo. Vá por você, não pelos outros. Procure, mas saiba bem o que está procurando, e não se deixe levar por menos. Menos não é o que você merece. Você merece mais, não da vida ou do destino, mas de si mesmo. Deixe esse orgulho de lado, abra um vinho e brinde comigo. Brindemos ao pé na bunda, aos foras do passado, às pessoas erradas, e aos acertos que virão. Mas principalmente brindemos a mim, a você, a nós. Não ocupe seu coração com o que quebra, e sim com o que o deixe maior. E se quebrar, eventualmente, não é o fim do mundo. Coração se cola, caco por caco, e não demora muito para achar o superbonder certo. 

 

 

* Foto por Malu Lima em Estocolmo, Suécia

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