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Faça saudade, não ausência

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Dia desses estava amoada. Não daquele jeito que as pessoas percebem, mas estava. Então resolvi sair com um amigo para tomar um café e ele, como bom perceptivo que é, tirou de mim os ovos de ouro. Disse a ele que estava com saudade. Ele perguntou, saudade? Respondi que sim, saudade. Foi então que me surpreendi com a resposta que veio em seguida. Daquelas que te atingem e te fazem lembrar dela para o resto da vida, sabe? Ele disse que eu não sabia diferenciar saudade de ausência e, se ele bem me conhecia, eu estava sentindo ausência. Não poderia ser saudade, afinal. Touche. Parei para pensar no assunto e em quantas vezes me senti saudosista de alguém, algo, época ou partes de vida. Saudade ou ausência? Ausência é aquele buraco causado por uma falta de materialidade. Alguma coisa costumava ocupar aquele espaço, é como um móvel que falta na casa. Se te falta uma mesa de jantar, vamos lá, compre outra. Por mais que te agradasse a primeira, ela não é insubstituível. E a saudade? Bem, sobre a saudade o buraco é mais embaixo, e talvez bem mais fundo. Não está na cabeça. É um buraco aberto no coração, porque faltou alguém. Mas não um mero buraco, porque lá dentro tem sentimento. Você sente sem alvo, porque o alvo não está mais ali para receber. Isso me fez pensar que a saudade é também um sentimento nobre, porque vem do prazer de se doar, sem receber. Você não recebe de volta, o que quer que te falte simplesmente não está ali para devolver a altura. Por algum motivo, semblante ou atitude, roubou-se uma liberdade mútua, o que pode ou não doer, a depender do mecanismo de roubo. Pode surtir de um lado ou dos dois, pode ferir ou pode ser nostálgico. Pode ser feliz quando bem lembrado, pode derramar as lágrimas mais ambíguas e é de tamanha complexidade que já não sei mais como pude confundir coisas tão discrepantes. Sinto saudades de muitas coisas na minha vida. Sinto falta de muitas pessoas e a ausência de outras. Olhe para o seus pés e olhe o caminho que eles desenham. Viva e caia de cabeça. Mergulhe fundo e fale o que tenha que falar. Conviva com pessoas que te fazem sentir livre para ser quem você é. Olhe com olhos bons, procure o melhor lado de tudo. Fique feliz pelo cheiro de chuva ou pela sombra do sol, pelo Doce e pelo salgado, pela água e pelo vinho. Fique feliz por quem você é e seja o melhor e mais intenso que consiga ser. Viva o quão mais consiga viver. Para Que no fim disso tudo que às vezes a gente nem sabe direito o que é, você olhe para os seus pés e pense que eles fizeram saudade. E isso, por si só, já omite todo e qualquer arrependimento. Te traz lembranças plenas e de paz. Trace infinito com seus pés e um caminho de amor. Não seja a mesa de jantar, seja vida. Não seja ausência, seja saudade.

* Foto: Por Malu Lima, em Rio de Janeiro

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Amor com canela

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Às vezes eu acho que sou tida como louca no supermercado. Gosto de ir lá a noite, como se fosse um encontro. Muitas vezes de madrugada, quando perco o sono. É praticamente uma terapia ficar olhando os produtos novos e eu, invariavelmente, caio nas estravagâncias da publicidade. Deve ser por isso que nessa minha última ida a moça do caixa me olhou estranho. Foi então que eu reparei que estava levando uns 15 potes diferentes de iogurte. Grego, morango, desnatado, com lactose, sem lactose, nas mais variadas combinações de frutas. Bom, não preciso nem dizer que desde então minha missão diária é consumir a maior quantidade de iogurte possível, só hoje já foram dois. Coincidentemente, de manhã era maçã e canela. Pensei comigo, vá lá, esse eu vou comprar de novo. Deveras muito bom. O da noite era banana com canela. Me peguei pensando: a danada da canela não tem tampa da panela, coitada! Fica bem com tanta coisa. Aí veio o remorso e pensei de novo. Nunca acreditei na tampa da panela e na metade da laranja, porque haveria de julgar a pobre da canela? Explico. Que amor você quer para você? O que dá paz. O que acolhe e abraça. Que não julga e até concorda, que discorda com delicadeza ou mesmo brigando faz as pazes depois. Um amor que ri de você quando você dorme no meio do filme, que te ajuda a construir a confiança que nem você sabe que faltava, que cuida e em quem não é dificil confiar. Algum que aprende do que você gosta só porque quer viver do seu lado, que dorme ali porque o sofá com você é mais gostoso, que se abre, é humano, é sensível e é sincero. Que grita, que chora, que briga, que pede desculpa. Que gosta de te levar para jantar no seu lugar favorito, o qual ele sabe bem onde é, mesmo que esse lugar seja em casa. Que fica do seu lado jogando papo fora num domingo e olhando para a TV, a qual provavelmente só passa Rodrigo Faro ou o Faustão. E você nem se sente culpado por possivelmente o relacionamento estar entrando em uma rotina, porque desse jeito a rotina é boa. Ele joga pipoca em você, mas é brincadeira. Você passa sorvete no rosto dele e ele se irrita, porque estava gelado. É um mimimi insuportável para quem estáde fora, mas que na sua história faz todo sentido. Faz todo sentido brincar de Star wars com o travesseiro ou o que for. Porque esse amor é o melhor amigo e o melhor amante. Mas é seu. Qual o melhor amor para você? O seu. Aquele que faz ser fácil. Que está ali. Não é para você estar sozinho. Você não precisa seguir sozinho. E não é para ser difícil. É para ser fácil. É para ser leve. Igual banana e canela. Ou maçã e canela. Não existe só um encaixe possível. E a canela não estava errada. Existe apenas o encaixe que vai te deixar mais feliz e que te deixe viver melhor. Por sinal, prefiro o iogurte de maçã com canela, e amor para adoçar, por favor.

* Foto: Por Malu Lima, em São josé do Rio Preto

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O que você não trouxe

ImagemHoje eu saí cedo e cheguei tarde. Não tinha água em casa. Não tem água em casa. Era Dezembro e o clima era ameno em Lisboa, apesar do Dezembro. É maio e o clima está ameno onde estou, apesar de você. No Dezembro de Lisboa me chamou a atenção a Catedral da Sé, que estava vazia. O movimento era mínimo e um fotógrafo registrava figuras de pedintes. Um velho passou por mim determinado. Com certeza tomara ali, entre uma prece e outra, grande decisão. E eu? Eu entrei me escondendo na sombra e sem saber direito o porquê. É como se ali todos devessem se esconder na sombra, ou da sombra. Digo isso porque logo a frente uma música dócil tocava. Era som de teclas e era um piano. Era também de um toque doce e delicado. Uma pianista tocava de olhos fechados, nenhuma música em especial. Mas estava ali, na sombra, se fazendo luz. Estava perpetuando um silêncio sagrado com música. Você podia escolher entre ela estar ali ou não, vê-la ou não, escutá-la ou não. Sim, ouvia, mas a luz que emanava de sua arte dava lugar aos nossos pensamentos mais profundos. Devia ser por isso que aquele velhinho saiu de lá tão decidido. Fitando a cena e ouvindo a música, dei lugar ao meu coração e me senti tomada de paz. Fiz uma oração. Saí emocionada, embora menos decidida que o homem. E hoje? Bem, hoje estou aqui. O clima está ameno. As músicas são inespecíficas. A paz reina, já que você está, mas não está. Hoje estou na sombra, mais na luz baixa. Em casa não tenho água e dessa vez não tenho você para me trazer uma garrafa de água. Ainda da pouca luz que resta fiz certas constatações e descobri que nem sempre da penumbra tiramos decisões, porque certas decisões a vida toma pela gente. Mas podemos tirar a paz necessária para enxergar nossa deixa de partir para outra e para decisões ao nosso alcance. Se não tivesse tão cansada e saísse andando, meu passo seria decidido, como o daquele dia em Portugal. Porque você não está aqui e essa decisão não foi minha nem sua. Nem da água que acabou. Foi da vida que deixou a garrafa vazia. De resto, ela pode me encher de saudade, mas  sobre a água, eu já posso ir saindo para comprar.

* Foto: Por Malu Lima, em São josé do Rio Preto

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Quando esperar

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Esses dias alguém me pediu para esperar. Foi bem assim, “espera um pouco”. Eu disse que estava indo embora, e quando foi feito o pedido, resolvi olhar para trás e relevar. Quando era criança minha mãe tinha mania de me deixar esperando no carro enquanto passava visita no hospital. Eu odiava. Só faltava acabar com a bateria do carro enquanto aguardava, ansiosa, ela chegar em um sábado, para me levar na banca comprar figurinha e picolé, trocando as estações do rádio. Teve um dia em especial que a demora foi grande, e eu, naqueles pensamentos de criança, coloquei na minha cabeça que minha mãe tinha sumido. Que algo tinha acontecido. Primeiro comecei a chorar e aumentei o volume da música. Depois entrei em desespero e me perguntava porque ela tinha feito aquilo comigo. Porque tinha me deixado lá, daquele jeito? Ela faria isso? Eu torcia para ela aparecer, embora àquela altura já pensava em planos mirabolantes de como ligaria para o meu pai avisando o ocorrido. Então tive a ideia brilhante. Resolvi que seria mais decente disparar a buzina do carro. Caso minha mãe estivesse em algum lugar lá dentro, certamente saberia que era eu. Não tive dúvidas. Abri o berreiro e dei-lhe a mão na buzina. Apareceu, depois disso, uma enfermeira afobada tentando me tranquilizar. A questão é que quando eu vi minha mãe cruzando a porta do hospital, é como se tudo fizesse sentido. O abraço dela já poupava as explicações e no momento seguinte eis o que eu estava fazendo: sorrindo, cantando e tomando sorvete. Sem mágoas, sem nada. Me marcou do tanto a lembrar disso até hoje, e foi suficiente. O ponto a que quero chegar é que na vida esperamos por muitas coisas e muitas pessoas. Quantas vezes não doeu de esperar sentado os pais? Um ou outro amigo desligado e atrasado? A comida chegar no restaurante? O café, porque a cafeteira quebrou e você precisava? E quantas coisas inesperadas e boas aconteceram enquanto se esperava? Acontece que precisamos enxergar a deixa de esperar e a deixa de partir. Eu, com meus três anos de idade, não tinha idade, perna ou autonomia para partir. Nem partiria. A decisão é deixar ou não deixar. Querer ou não querer. Merecer ou não. Minha mãe já me tinha desde quando eu fui concebida. Então, quando levamos o chá de cadeira, sempre esperamos mais aqueles cinco minutos. Os cinco viram dez, que viram uma hora. Dali um pouco chega o momento de tomar coragem e assumir: fulano não vem. Aconteceu alguma coisa. Vou embora. Cansei. Mas o chá de cadeira do amigo não é a espera que incomoda. Não magoa. A espera que mais dói é aquela que pode durar uma vida. É para coisas e pessoas que te fazem inventar um milhão de desculpas as quais justificam você estar ali já há um tempo, esperando sem perspectiva mas com esperança. Essas pessoas fazem seus olhos brilharem e te fazem acreditar que enfrentar o relógio vale a pena, por você ter medo de perdê-las. Seu maior medo se torna perder. Medo de jogar para não perder. Medo de falar, de levantar. Medo do sim e do não, do amar e não amar, do fazer e do não fazer, do estável e instável. Você não sabe se portar por ficar sem graça diante do mundo enquanto elas não chegam, e diante delas quando elas enfim dão o ar da graça. Mas a decisão tarda, não falha. E então vem o primeiro músculo que se contraí, o impulso para saltar da cadeira. Você dá uma volta por ali e olha no relógio mais uma vez. Espera mais cinco minutos. Mais três. Dois. Chega a contar meio, ou um quarto. E vai embora. Só que ao chegar nesse ponto, se em um último suspiro alguém te pedir para esperar, faça como eu. Lembra que dessa vez você optou por você, e não dá tempo de cumprir os dois compromissos no mesmo horário. Você precisa ir. Então, vai correndo, e no fim do caminho abrace as coisas que não te deem medo. Abrace quem te abraça de volta.

* Foto: Por Malu Lima, em Copenhagen, Dinamarca

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Copenhagen me ensinou

Estava de breve passagem pela cidade Nórdica, realmente de beleza estonteante. Mas a verdade é que também estava de saco cheio daquilo sobre visitar pontos turísticos. Pois andava por ali com um amigo da Turquia, e, confesso, por alguns instantes eu o odiei. Debaixo do calor sereno, do cansaço da viagem, de algumas horas de trem, ele decidiu impassível: era possível andar a cidade toda a pé, em um único dia. E eu como não sou de largar a mão de desafios, topei, sem saber ao certo que aquela criatura fotografaria todo lapso de momento ou lasca de monumento. Me arrisco a dizer, acredito na máxima de que ele enxergava o mundo pelas lentes. Era exatamente aquilo que acontecia, enquanto jogávamos fora uma conversa qualquer, ou cantávamos músicas andando naquela chuva escaldante, ele batia fotos incansavelmente. Até que eu cansei. Não das conversas, não da música. Não queria mais museu, tão pouco queria monumentos. Não me arriscava na máquina fotográfica, e, embora goste muito de fotografia, aquela ali não era minha praia. Não naquele dia, nem naquele momento. E ainda suplico para que me perdoe meu amigo, mas o deixei no museu e sentei em uma passagem, na rua principal. Fiquei ali por horas ouvindo um casal de músicos tocando e vendo o movimento da cidade. As pessoas. Mais que ver, sentia. Mais que linda, a cidade é viva, cheia de entranhas surpreendentes que cativam a alma. Fiquei ali e não realizei do tempo passar, do relógio correr, do sol que se foi e da chuva que chegou, me encharcou e também foi embora. Era só mais alguém passando, deixando sua marca e abanando a mão. Ir embora é a ordem natural das coisas, de qualquer coisa, afinal. Das duráveis e não duráveis. Não vejo porque não incluir a chuva nisso. Então, me notei ali e tive a impressão de piscar a primeira vez em muito tempo, o que, provavelmente, não era uma impressão real, nem tinha o menor cabimento. Meus sapatos estavam escaldados e eu patinava. A sensação era extremamente desagradável, o couro se moldava ao meu pé, mas eu não estava nem ai. Eu levantei e voltei para o museu, cheia de remorso. Encontrei meu amigo  saindo por aquela porta principal. Desde que me conheço por gente sou míope. Recentemente me dei por astígmata. E depois de algum tempo reproduzindo em cores a vida besta descrita por Drummond, me dei conta de que não tinha direito nenhum de condenar o ver de lentes do meu amigo. Aquelas eram as lentes pelas quais ele queria enxergar o mundo, porque para ele o sentido da vida está em reproduzir o mundo para os outros. O amadurecimento, talvez, trouxesse uma visão diferente, mas as pessoas com quem ele convivia nunca teriam a oportunidade de ver aquilo. E me pareceu tudo inócuo. Me senti grata por aqueles que veriam as fotos com interesse, embora, para mim, fossem fotos vazias. No dia seguinte, quando ele pagou os ingressos para o parque de diversões e não foi em nenhum brinquedo, apenas tirou fotos, eu já entendia. Deixei ele viver com as lentes dele. E eu, que mesmo cheia dos problemas de visão quase nunca cedo a óculos ou lente de contato, preferi continuar com as minhas. O que não fazia as dele menos válidas, apenas diferentes. Nada que precisasse ser verbalizado já que eu sabia e ele sabia. Fui para um lado e ele para o outro. Bastava. No mais, o viver de cada um a sua forma nos proveu de aprendizados sempre válidos, registrados do lado de dentro. Voltamos a nos encontrar na viagem de trem, em silêncio respeitador. A visão dele passava por algumas lentes a mais, um delay necessário e quem sabe apreciador. E eu na certeza de que minha visão de mundo, ainda que totalmente embaçada pelo meu complexo e problemático par de lentes naturais, estava inteira certa. As duas juntas, inseridas no caos. 

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E agora o amanhã, cadê?

Tenho um amigo de quem sempre tenho saudade. Dele e de mim. E de como sei ser eu quando estou com ele, sem medo de ser feliz. Ás vezes me bate uma época de falar de futilidades, de viver a vida a fundo, de esquecer do mundo. E de mim. Vivem repetindo por aí que só se dá valor quando perde, e hoje tudo que eu sei é que precisamos de cuidado para não nos perdermos da gente. Essa perda vem, irremediavelmente, cheia de sequelas. Quando se é tempo de recuperar, porém, os remédios chegam de modo prazeroso e pleno. Recuperamos a consciência e prometemos não entrar de novo no buraco negro, ao menor e maior espanto, lá estamos de novo, a aguardar na guia, sem sinal, sem fim. Meu conselho, amigo, é não buscar a felicidade, ou a solução. Não opte pelo indolor, ou por tudo que passa indiferente pelos olhos. Vá, sofra, e entre a fundo na busca certa. Vá te buscar que já é tempo, e eu também vou indo.

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O plural do Adeus

Bati o dedinho na quina. Doeu como o quê. Cortou. Te pedi um esparadrapo, estanquei o sangue e colei. Bem ali em cima do corte, foi de pronto: colei. Já não tinha dor. Já não tinha você. Nem tinha como sentir saudade do que não era meu. Jeito um ou outro, sempre estará para dentro de alguma forma. E então sorri, abanei a mão e disse adeus. 

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