Arquivo da tag: VIDA

Tempo vendido

preco-do-amanha-poster-05out2011

Assisti há alguns meses o filme “O preço da amanhã”. O filme já é velho, de 2011, mas vou dar um resumo breve para situar a quem ainda não viu. Trata-se de uma época futura na qual a ciência descobriu uma forma para que as pessoas parem de envelhecer aos 25 anos, e, a partir de então, trabalham e lutam para conseguir, possivelmente, um merecido tempo de vida. Os ricos têm muito tempo, os pobres quase nada, os ricos tiram dos pobres, ou seja, pode-se dizer que na ficção o tempo é tido como moeda de troca. Lembrei desse filme hoje, enquanto comia minha salada. Pedi salada, frango desfiado, purê de batata doce e suco de melão. Me orgulhei de ter optado por algo saudável, e pensei comigo, ainda bem que inventaram esses serviços delivery fitness, o que seria de mim? Não teria tempo de preparar uma refeição dessas, imagina, seria o tempo de desfiar o frango. Pois bem, o insight veio: comprei meu tempo.
Vende-se muito, mas muito do que se vende é exatamente isso: tempo. Me vi assustada com o fuá da nossa estrutura social. Como fora, não tenho tempo de ir ao mercado, de preparar a comida ou lavar louça. Estou sem tempo, não rola de limpar a casa, vou chamar a faxineira. Não há tempo de ir ao banco, de lavar a roupa, tirar o lixo, fazer compras, levar os filhos para a escola, trocar uma lâmpada, pedir o gás, comprar um filtro novo, passear com o cachorro, levar o sapato para arrumar. E então, o que fazemos em relação a todas essas coisas as quais seríamos bem capazes de fazer? Pagamos a quem o faça. Compramos o tempo de alguém, geralmente por pouco, muito pouco. E então, enquanto você curte a vida na Polinésia Francesa ou simplesmente trabalhando com o que gosta, tem alguém deixando a vida passar por uma gorjeta qualquer e fazendo o que você chama de serviço sujo.
Foi ignorante da minha parte não ter notado, a príncipio, a essência de uma ficção a qual julguei simplesmente como um romance bobo, porque esse não é um futuro longíquo: nós vivemos na era em que o tempo virou produto e também moeda. Muitas pessoas vivem da venda do seu próprio tempo, o que é triste. Sim, elas precisam disso para sobreviver, precisam desse dinheiro e desse trabalho, mas ao fim de tudo, é isso mesmo? Será que elas realmente gostam disso ou é apenas questão de necessidade? É um tempo perdido ou um tempo vendido? Tempo vendido é a mesma coisa que tempo perdido? Depende.
A história vai além. Ainda existem as opções gourmetizadas das coisas. Paga-se para comer em um restaurante por prazer, para ir em um museu, para aprender um novo idioma. Paga-se pelos bons tempos e para quem viva por você os tempos ruins. Que tipo de pessoas viramos então? Semi-pessoas, pessoas divididas ao meio, jogamos a outra metade fora. Nos tornamos o tipo de ser humano que despreza o prazer pela vida e eleva padrões que não devem ser elevados: levar seus filhos para a escola não é, de forma alguma, menos importante do que levá-los ao melhor lugar do espetáculo de ballet na temporada Russa. Pelo contrário. Você vai criar pessoas melhores se estiver lá, esperando o portão abrir e mostrando que faz questão da sua educação e dos seus problemas cotidianos, afinal, os filhos também precisam saber que você se importa. Aliás, eles precisam ter certeza disso. Você só vai ter uma casa menos empoeirada quando realmente aprender a limpar, e ninguém vai explicar ao sapateiro como você quer, exatamente, o verniz retocado. Ninguém vai viver a sua vida por você como você mesmo faria, e sabe porquê? Porque estão todos preocupados com suas próprias vidas e com seu próprio tempo perdido/vendido.
Então, trabalhe, e em algum momento você vai mesmo precisar comprar seu tempo e também vendê-lo. Mas venda fazendo aquilo que goste, e compre quando realmente julgar necessário. Abrace seus filhos, ensine alguém a andar de bicicleta, encontre sua irmã para um café, prepare seu próprio café, vá ao mercado, leve seu primo ao parque do prédio, tome conta do seu avô. Porque nessa de vender e comprar, tem sempre vida se perdendo, e guarde esse segredo: ela é sua e ela passa.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Quando você me perdeu

Eu fechei os olhos e desejei estar em uma varanda de qualquer ruela em Viena, observando o papo furado dos turistas logo embaixo. Eles falariam sobre o Danúbio, Mozart, ópera. É o que sempre falam. Mas eu não estava lá, eu só me imprimia por dentro, vãs tentativas de não compreensão. Eu estava sentada na minha cama, cobrindo meus olhos, que estavam molhados, mas eu não chorava. Era só aquele tipo de notícia que você constata, e é dura, mas de tão dura que é te faz encará-la na hora, na vida, no chão, como for, e numa dessas eu fechei os olhos em uma tentativa desesperada de não enxergar. Mas meu amor, era a hora. Eu queria o frio, e o clima estava ameno. Eu queria você, mas foi naquele fatídico dia, e não teve escape, desculpa ou o menor jeito. E então, você me perdeu, não foi?
No dia em que você me perdeu, era clima de uma estação. Minha pele não sentia nada específico, porém. Eu acordei indiferente, e isso não é bom, porque em alguns momentos da vida já aprendi que a gente precisa sentir o tempo todo, amor, amizade, ódio, fúria, calor, frio, o que seja. Mas eu não sentia, e então liguei para uma amiga, na incapacidade de sentir, sofra, ela me disse. Eu precisei de você, assim como preciso em vários momentos do dia. Eu precisava contar qualquer coisa banal, precisava de você no sofá, no quarto ao lado, contando uma piada ridícula ou me consolando com uma conversa boa sobre um dia ruim, mas você não estava lá.
O dia quando você me perdeu, tocava The Beatles na 100,3 FM, eu abri a janela do carro para respirar melhor, reclamava dessa falta de ar subjetiva há algum tempo. Eu fui trabalhar, comi um pão na chapa, e na ansiedade de qualquer vazio que viria no momento seguinte, tomei ao menos quatro copos de café sem açúcar. Sentei em várias cadeiras, e sentia que iria quebrar todas elas, com o peso que carregava.
Eu passei aquele dia inteiro relutando contra forças internas que eu nem ao menos sabia que conhecia. Eu me distraí com qualquer primavera da rua, e também tentei sorrir, sem êxito, sem rir, nem chorar, nem sofrer, nem sentir. O dia em que você me perdeu, ventou. Ventava bastante, e de noitinha fui fazer uma caminhada, eu te disse, não? Mas sua resposta eram apenas palavras, e suas preocupações sempre foram para dentro, nunca para fora. Naquele dia, suas palavras passaram a ser para dentro, também. Era tudo para dentro, toda decisão sobre você, lembra?
No dia em que você me perdeu, o vento, a exaustão, o corte que fiz no meu dedo cortando batata no almoço, não me fizeram sentir. O sereno não me comoveu, não existia sofrimento, eram boas lembranças e muito vazio. E meu amor, como estivemos vazios, não foi? Como nos faltaram palavras, músicas, danças, filmes, mãos. Como nos escapou a vida no meio de tanto sentimento? De repente os carros passavam e estavam parados, pessoas falavam caladas, olhares suplicavam indiferentes. O fatídico dia em que você me perdeu, eu já não sabia se o porto seguro que tive para mim, de fato, um dia existira.
O dia quando me perdeu, você ameaçou falar, eu fiz que falaria, mas ninguém falou, e por palavras mal ditas e não ditas eu estive lá, na minha cama, lembrando da voz que sempre me diz a hora de ir embora. Eu tapei os olhos e me recusei a ver. Eu te odiei por ter feito isso com a gente, eu te odiei por me fazer sentir isso de querer te deixar, eu te odiei várias vezes por abrir essa maldita mão e ter deixado eu escorrer pelos seus dedos. Eu gritei que fechasse, eu te pedi que me abraçasse e me livrasse da queda livre. Mas se aproximava a hora de ir embora, que independe de exaustões particulares e peculiares. Quando a gente se incapacita de ir, a vida empurra. Não guarde mágoas, não me empurraram. Ouvi o conselho da minha amiga, e, no dia em que você me perdeu eu sofri. Sofri por te odiar e mais ainda por me odiar, por te deixar, por te abandonar, por não dar sinais, palavras, ou o que você queria de mim. Eu sofri quando olhei para o vazio que fitava enquanto me dei conta: você me perdeu. Eu chorava enquanto repetia para mim, você me perdeu. E pela primeira vez no dia, eu senti alguma coisa, eu senti forte e dentro.
Eu aprendi. Aprendi que seja lá o que aconteça com a gente, independentemente de quem estiver ao nosso lado, é necessário sentir, todos os dias e o tempo todo, como se tivesse um gatilho armado em direção a você, te obrigando sentir uma vida inteira por todo o segundo seguinte. Não adianta sentir fraco, com medo, acuado. De nada serve sentir só para dentro, a gente precisa emanar sentimento. Então, veja bem, sinta, mas não seja egoísta, no que puder, sinta junto.
Era um clima ameno e você me perdeu. Mas nessa de me perder, quem me achou fui eu.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

O coração fica

Vou propor uma experiência: entrelace suas mãos. Agora aperte firme, e as deixe assim, por um momento, abraçadas. Fique assim por alguns minutos e, enquanto isso, vamos conversar. Eu sei que você nunca mais vai ver o Manoel, que a Pri está na China sem data para voltar. Eu sei que você acredita piamente que aquela pessoa foi o amor da sua vida, e esse mesmo amor se esvaiu. Também sei que você se culpa por isso, pelo que pode ter sido e não foi; você culpa seu orgulho, e também o fato de não ter escancarado seu peito e falado tudo que gostaria de ter dito.
Eu sei que o mundo grita aos sete ventos para você falar o que sente, que isso alivia a alma, e mesmo assim você não consegue ver o fim da boiada dessa linha de raciocínio. E então você se sente um perdedor solitário e orgulhoso, e fica aí pensando no que deveria ter sido, depois de se sentir abandonado pelo mundo. Eu sei que você sente que a vida esqueceu de você em prol de protagonistas os quais você nem conhece, e também já sei que você grita com ela às vezes, se perguntando porquê. Porque, Deus?
Porque você acreditou de novo, se deixou levar, quebrou a cara? Porque confiar, se abrir, ajudar, dar o melhor de si? Vamos, lembre das mãos, aperte mais um pouco.
As pessoas vão embora, elas precisam ir embora, todo mundo precisa. Você vai se abrir sem ser correspondido, você vai acreditar que achou alguém que não vai te abandonar e ainda assim ser abandonado. Às vezes as pessoas escolhem ir, outras vezes a vida leva. Há ainda os momentos em que a vida opta por nos levar das pessoas, e nada explica isso. Nós temos planos maiores, e tudo tem sua história natural.
Então, o que te resta é entender que o amor acaba, amizades terminam, pessoas vão, voltam, ficam e se vão de novo. Você vai se sentir abandonado a ponto de se enterrar na cama e ouvir a playlist mais fossa do mundo, e vão haver dias piores. E então, aperte mais um pouco as mãos.
Você vai ser ignorado, vai se sentir pisado. Em alguns momentos as coisas vão dar errado, e depois certo, e depois errado. Você vai botar mais fé nas coisas do que deveria. Vai engordar e vai emagrecer. Vai ter momentos de bem com seu cabelo e em certas horas vai querer raspá-lo. Você vai para Paris e esquecer de fazer alguma coisa que queria ter feito.
Um dia vai achar lindo as formigas juntinhas andando a Deus dará, e no dia seguinte vai odiar uma formiga pelo vergão na perna. Você vai amar a vida e também vai praguejá-la. Vai cantar sua música favorita até arranjar uma nova, porque a antiga não cabe mais, nem faz mais sentido.
Você vai dormir e vai acordar. Já sente suas mãos formigando? Já parou de senti-las? Então solte. Sinta como elas estão travadas, como elas travaram enquanto estavam juntas. Agora sinta como a circulação se recupera quando se soltam. Comece a sentir novamente, chega a doer essa recuperação, não? Mas ela volta, tá? Assim como a gente, ela volta a sentir, a mexer, a te ajudar a viver. Você não vai perder a mão, nem o braço, nem mais nada, assim que se lembrar: as coisas precisam se desprender para chegar a certos pontos.
Assim como quando você largou as mãos, as pessoas precisam viver outras coisas, elas se vão, se desprendem. Dói, dói um bocado, mas quando alguém te pedir liberdade, não hesite, deixe ir. Experimente a dor até parar de senti-la, a dor é necessária, bem como o amor. Grandes amores só são inesquecíveis quando não totalmente vividos e esgotados. Pois bem, deixe ir e vá também, você precisa se encontrar. Sua mão vai ficar bem, e você também.
Seu coração um dia vai parar de bater mas, por agora, ainda bate. Então faça jus a cada batimento, enquanto não falta nenhuma parte de você aí dentro.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Com sombra e sem dúvida

3075

 

Nessas viagens que fiz com amigos, a prece é sempre a mesma. As meninas entrando nas milhares lojas de maquiagem e os caras reclamando. Tenho um amigo que era o que menos reclamava, porém veio com um argumento diferente. Certo dia, no almoço, começou a discutir o fato de homens não gostarem de maquiagem. Odiavam olho preto, e quem dirá o batom. Não sabiam porque as mulheres gostavam tanto dessa máscara.Ontem fui passar batom e parei na frente do espelho. Foi nessas e tantas que eu comecei a pensar, nós usamos as máscaras cosméticas, mas e as outras? E aquela máscara que todas as pessoas colocam todo santo dia antes de ir para o trabalho e penduram ao chegar em casa? E aquela voz mansa que se tem diante do mundo e que vira uma voz ríspida e dura dentro de casa, depois de passar a chave? Sempre me ensinaram que a mudança começa dentro de casa, ou entre os mais íntimos. Para mim, isso não funciona. A mudança começa no seu íntimo, dentro de você, quando alguma coisa te estimula a mudar. Também acredito que mudamos com coisas e pessoas certas. Invariavelmente, com ou sem passos adiantes, cometeremos erros e, sim, vamos extravasar com aqueles que sabemos que continuarão ali, pendentes ao nosso lado. É intrínseco. É quem tem a responsabilidade sobre a gente, além da responsabilidade que carregamos sobre nós mesmos. São para essas pessoas que damos parte de nossas vidas, ou muitas vezes elas já nascem com um pedaço da gente na mão, não tem como escolher diferente.
Com a minha pressa, passei o batom e saí de casa. Deixei meus pensamentos assim, a Deus dará, quando ainda se falta algo consistente a se apegar. Chegando em casa, novamente, no fim da noite, olhei para o espelho do elevador, como faço invariavelmente (quem não faz?). Estava eu lá, mais uma vez, sem maquiagem. A questão é que no fim da noite ela sempre se foi. E adiantou perder tempo com a produção? Sim. Porque no fim, o que fica é o que atravessa a noite e te vê assim, dia após dia sem maquiagem. Quem anda do seu lado não deixa de gostar de você quando não tem batom, blush e sombra. Nem gosta menos de você quando você os usa. Quem fica te vê com o rímel borrando o rosto inteiro depois de uma longa chorada, depois de uma noite longa ou uma bebedeira qualquer. Os que ficam te oferecem um lenço e chegam a rir do seu olho de panda. Eles continuam se divertindo do seu lado, mesmo quando tudo acaba, e quando parece que as coisas chegaram ao fim.A amiga de verdade é a que te fala que tem batom no seu dente. Quando a caminhada parece acabar para você e o que te sobra é uma cara lavada, de olheiras e riscos de vida, são essas pessoas que vão te olhar e te achar linda. Audrey Hepburn dizia que nunca faria uma plástica, já que as rugas eram marcas que ela carregava da vida. Adaptando a pregação dessa que sempre admirei, te daria um conselho. Use sua máscara, adote sua maquiagem, esconda suas marcas do mundo, já que não são todos que merecem vê-las. Reduza a exposição, mas se abra com quem merece. Ignore o que te faz mal, mas perdoe o que se redimiu. Siga mostrando aos que verdadeiramente importam as histórias das cicatrizes que carrega consigo, porque toda vida guarda marcas grandemente boêmias e eternamente poéticas. Acima de tudo, pare e pense sobre o que aprendeu com cada uma delas, já que internalizar os fatos te torna conhecedor de si mesmo. Quem te aceitar assim, de cara lavada, e estiver do seu lado ao fim de cada noite não deixará dúvida: é mais uma sombra que você precisa carregar com você, com todo contraste entre qualquer luz e parede. 

 

* Foto por Malu Lima em Lisboa, Portugal

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

O amor na geração Y

Imagem

Um dia eles vão perceber. Um dia vão notar toda essa sua grandeza. Eu queria que antes você apenas olhasse em volta e observasse a geração coca cola abrindo alas para essa nova que vem aí. Gostaria de te apresentar a geração orgulho, cheio de mocinhos e mocinhas de pé atrás, reclamando e tentando achar causas por não terem um par, por nada dar certo. Não tem gente decente no mundo, tem? Não existe mais tampa da panela. Sortudo daqueles que acharam, não é? Olha a baita da sorte que fulano, quando menos pensava que acharia alguém, pimba! Achou. Ouço as pessoas dizerem que você só encontra o amor da sua vida quando para de procurar. Eu discordo. Acredito que estamos vivendo uma geração amorosa peculiar, em que sair por baixo é feio. As mulheres lutam contra o machismo e ainda querem que o homem sempre tome uma atitude. O homem não entende bem dessa forma. A verdade é que os tais sortudos fazem pouco caso. É bem assim, não supervalorizam nada, deixam rolar, sem ansiedade. Aqueles ditos com sorte não ficam medindo atitudes aqui e ali, e não ficam preocupados com o alface no dente do primeiro encontro. Aliás, eles podem ir no primeiro encontro de all star e esmalte descascado, porque não faz a menor diferença. E daí? É o primeiro encontro, não o casamento. Esses tipos não fazem tipo, eles sabem que se não der certo o mundo não vai acabar. Geralmente, têm o mínimo de auto estima para sua preservação de modo que acreditam: estão no direito de experimentar, de selecionar e caso o par da vez seja errado, ele não é o último do mundo. Ah, e tem o pé na bunda. Se levar, vai morrer? Não. A notícia é que não está errado pensar assim. Vivemos a geração dos vinte e poucos anos, em que todo mundo aqui já foi desprezado alguma vez na vida. Caímos de cara com a pessoa errada, dizemos que amamos uma ou duas pessoas a vida inteira, temos sete pés e meio atrás com qualquer experiência nova embora, no fundo, todo mundo guarde a esperança de achar o seu e ir para o altar um dia. De tanto se decepcionar, nosso orgulho, já inflado pelas tantas conquistas que temos ou que eventualmente nossos pais conseguiram pela gente (ou fizeram a geração Y acreditar que mereciam), bate alto. Bem alto. Ele fala que já chega, que feio todo mundo pensar que você está sozinho, ou tomou um fora, ou está na bad por um mal amor. Ele te faz pensar que você vai se sair melhor quando fizer sofrer, e não ser o sofredor. Pior, as pessoas tem que acreditar que você saiu por cima, senão ele não se satisfaz. Seu medo de cair de cara e sofrer de novo é tão grande, que você olha o mundo com maus olhos: cada qual do sexo oposto é candidato perfeito para te empurrar do precipício. Quer saber de dois segredos agora? O primeiro é que o precipício foi você quem criou. O segundo é que todo o resto está na mesma. E portanto, ninguém vai se aproximar de ninguém genuinamente. A galera não está a fim de bater um papo e tomar uma cerveja. As meninas vão acreditar que são apenas segunda intenção. Os caras nunca vão achar alguém suficiente para se esforçar. Todo mundo na fé de que ninguém presta. E eu te pergunto, você presta? Ou você, geração Y, ainda está nessa birrinha com a vida de desafiar o mundo e gritar aos quatro ventos “eu sou um heart breaker e quero ver alguém que preste aparecer!”? Já te adianto que eu também sei que no escurinho da sua cama você chora e cruza os dedos para a vida te dar uma boa pessoa de presente. Uma boa pessoa que descomplique, que te dê calma e paz de espírito, porque você cansou de tanta turbulência. Mas não, ela não vai dar. Você vai continuar fingindo que não está procurando, na esperança de encontrar a pessoa certa, e não, você não vai achar. A gente não gosta do descomplicado, a gente quer o desafio. Não dá para descomplicar quando o nó está na gente. Então comece desfazendo esse laço aí de dentro. Uma amiga minha fala que não tem a menor vergonha de tomar um pé na bunda e de falar que tomou. E ela está certa, não há vergonha nisso quando você se valoriza. Descomplique. Descontraí. Vá se divertir, e não á caça. Vá jantar, e pode comer uma coxinha bem gordurosa com alho na balada, que se for o seu dia, vai ser. Tenha segurança em você, selecione, o babaca ao lado não é o último cara que você vai conhecer na vida. E se ele parece um chato, ele é um chato, não pense que vai transformar ninguém. Porque a vida não dá presentes para heart breakers envergonhados de si e de suas desilusões amorosas. Sobre essas desilusões, elas te ajudam a crescer e te fazem ganhar experiencia. São as lágrimas que empurram sua maré para onde ela está agora, então aproveite e vá na onda. Cresça, e dê o laço no lugar certo. Vá por você, não pelos outros. Procure, mas saiba bem o que está procurando, e não se deixe levar por menos. Menos não é o que você merece. Você merece mais, não da vida ou do destino, mas de si mesmo. Deixe esse orgulho de lado, abra um vinho e brinde comigo. Brindemos ao pé na bunda, aos foras do passado, às pessoas erradas, e aos acertos que virão. Mas principalmente brindemos a mim, a você, a nós. Não ocupe seu coração com o que quebra, e sim com o que o deixe maior. E se quebrar, eventualmente, não é o fim do mundo. Coração se cola, caco por caco, e não demora muito para achar o superbonder certo. 

 

 

* Foto por Malu Lima em Estocolmo, Suécia

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

O que não mata, engorda

2945http://www.youtube.com/watch?v=mpqdLqYYpoY

 

Acho que sou constantemente testada pela vida. Todos somos. Me coloque um cardápio na frente e pronto, tenho um AVC imediato. Posso passar horas lendo o cardápio sem decidir. E como eu decido, afinal? Me obrigando a escolher. E mais, me forço a escolher rápido, não só porque em geral tem alguém na frente esperando. A gente precisa escolher, sempre. E quando é para dividir o prato, então? Invariavelmente a educação nos obriga a colocar a decisão nas costas do outro, que joga a peteca de volta para nós, naquela coisa de ninguém querer ser responsável pelo desastre, no caso dele acontecer. Vai que fulano não gosta da pimenta daquele prato ou do bife acebolado do outro. Antes ele escolha, eu engulo. De contramão já deixo claro, assim como você fingiria bem se não gostasse da escolha do fulano, ele também sabe fingir. Quero chegar no ponto de que várias vezes ao dia somos colocados nessas encruzilhadas de não conseguir tomar decisões. Travamos e abrimos mão das nossas escolhas. Vamos direto na opinião amiga ou alheia, com medo de errar. Agora eu te pergunto, se a opinião da esquina errar, quem vai sofrer com isso? Quem vai comer a cebola crua do bife que o outro escolheu? Pois devo te falar que sim, você vai perder, uma ou várias vezes na vida. Vai sofrer, vai cair, e com certeza vai se decepcionar. Vão te trair, vão mentir para você. Você vai sim repetir o mesmo erro, vai insistir na pessoa errada, vai amar pessoas erradas que no fim não vão se tornar pessoas certas. Vai desejar que certos milagres aconteçam, mas eles nunca vão acontecer. Vai imaginar um ponto edílico no qual você provavelmente nunca vai chegar. Mas eu te garanto que quando tudo isso se concretizar você vai se sentir melhor se a decisão foi sua. Ouça a opinião, faça com suas mãos. Escolha. Erre. Deixe o erro ecoar bem fundo, até você dar risada dele. Você vai rir, eu sei disso. Vai crescer, também, deveras, se cresce com bifurcações. Vá por uma, ande por outra, conheça as duas, e viva. Erre, mas viva. Aprende. Vá de mãos dadas, vá sozinho, mas nunca deixe que decidam sua vida por você. Parta seu coração sozinho, com uma escolha sua. Vá de encontro ao espelho, bate a cabeça e quebra. Deixe quebrar. Escolha o prato errado, não tem problema. A gente nunca tem a garantia de que as pessoas continuam ali para nos ajudar a juntar os cacos e colar, um por um. Então, caso quebre, ajoelhe, junte, cole. Viva. Para então você ganhar, achar a pessoa certa, tornar o que achava errado certo, ter um milagre na sua vida e chegar em um lugar diferente do que imaginou, e que te fez mais feliz desse jeito. Você vai estar grande para escolher aquela empada de camarão terrível no boteco ali da frente, olhar adiante e morrer de rir da dor de barriga do amanhã. O que não mata, engorda.

 

* Foto por Malu Lima, em Valencia, Espanha

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

O que você precisa perder

IMG_1218

Me vejo sempre naquela situação de ter que arrumar a casa e fazer um milhão de outras coisas ao invés disso. Invento mil desculpas. É cansaço, é falta de tempo. Incrível como sempre nos falta tempo para colocar a casa em ordem. E eu te pergunto, qual casa? Sabe aquilo que não te faz bem e você se vê preso? O alguém que não saí da sua vida mas você diz não conseguir tirar? Acho que o sujeito está certo. É ativo, e não passivo. Objeto não deve ocupar lugar do sujeito. Não espere o que te faz mal ou o que não está certo se retirar voluntariamente da sua vida, como se fosse uma obra qualquer do destino. A verdade é que se ainda não saiu é porque você não quer. Uma professora de história a qual sempre admirei me perguntou uma vez: se você tem uma pedra no sapato, o que você faz? Eu respondi que provavelmente sairia mancando, porque a pedra iria atrapalhar minha caminhada. Eu faço diferente, ela disse. Porque? Pararia onde estava, tiraria o sapato e o sacudiria, até a pedra sair e poder continuar sua caminhada em paz. Hoje me pergunto quantas pedras a gente carrega no sapato, sem perceber. Quando foi que começamos a mancar pela presença incompleta de pessoas na nossa vida, acreditando que a causa de estar mancando era a ausência parcial dessas pessoas. Tá doendo porque não fala, não conversa, não faz, não é para mim. A verdade é exatamente o contrário disso, o que dói é a pedra. O que faz mancar é ela. Então, faça como minha admirável professora. Pare, tire o sapato e começa a sacudir. Sacode até a pedra sair daí. Quando ela sair, você vai perceber que o que te atrapalhava e não deixava você ir suficientemente longe era a presença de tal coisa ou pessoa, e não a ausência. Que você vive melhor sem isso na sua vida. E que apesar do apego, era justamente o tipo de coisa que você precisa perder para se achar. Onde eu quero chegar? Dizem que certas perdas são necessárias, e a gente ignora isso, porque geralmente somos nós quem perdemos, e nos dizem isso como consolo. Mas é a verdade. Sem algumas perdas a gente não aprende, não progride, não anda. Não pensa, não sente, não percebe a atrofia que certas coisas geram enquanto ainda estão ali. Sempre que perder algo, pense se não era mesmo para ir. Te digo, provavelmente era, e se não for, você vai contornar isso de alguma maneira, não se preocupe. Seja mais criativo que suas perdas, passe a rasteira nelas. Encare a perda como grandes prêmios que a vida te deu. Porque se essa pedra sair do seu sapato, apesar de você perder a pedra, será eternamente grato à vida por a ter tirado de lá. Então poupe seu papel passivo na história e a tire você mesmo. Largue essas muletas às quais você se apegou e usa de desculpas. A longo prazo sua campainha vai tocar, você vai abrir a porta e achar uma caixinha de presentes. Quando abrir, vai ver um cartão, e nele vem escrito: de você para você. O que? Um caminho para seguir, e uma vida em paz pela frente.

* Foto: por Malu Lima, Interlaken, Suíça

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized