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Autismo

Gira, Gira, Gira, Roda Gigante. O Carrossel dos dedos me persegue numa fúria alucinante. Roda, Roda, Roda, Carrossel. Gira dedinho meu, para frente, para frente, para frente. Dói meu coração, mas dói com dor doída, dói gritando, dói com jeito, dói com classe. Dói olhando para trás, grite pelas sombras em que estou disposto, exploda estourando meus tímpanos. Exploda para que não me deixe ouvir, exploda para que não ouça a sonoridade das vozes ou a penumbra da vida. Porque estar lá já não faz mas sentido. Estar lá nunca fez sentido algum. A parede branca me traduz no negro, e vai, vai, vai, Deus. Tira essa máscara Veneziana da grama, joga na minha cara, aperte-a contra meu ego, chute-a de volta a minha psique, coloque-a em um superego sobrenatural, eleve tudo para o inconsciente e tapa, tapa, tapa, tapa todos os buracos. Tapa cada um com a massa que a humanidade pisou e com os ferros que todo mundo chutou. Tapa com cada pedaço de compreensão, busque uma estrutura saudável, uma súplica gritante, uma guerra vencida, uma batalha perdida, um alicerce mal feito, um relativo mal aceito, uma psique problemática e a problematização estática entre maleáveis vidros. A noção prende-se entre vitrais e mosaicos, entre reflexos mal colocados, entre pensamentos não interpretados, entre jogos em um centro sem fim. Entre retas e retas e flechas e arcos e centros. E entre tudo que não é centro…é bem ali que estou. No meio dos buraquinhos de ouro, no meio do colorido dos outros, no meio do meu confortável preto e branco concêntrico e na minha comunicação sem fim. Comunicação, fala, fala, fala do olhar, fala, fala, Carrossel, fala. Fala tudo isso, fala por cavalos e me faça de boi, fala por éguas e me faça de mula, fala por gente e me afirme animal. Animal sem verdades. Animais somos nós. Animal sou eu. Animal é você. Animal é tudo isso. Animalescas são as atitudes. Elevem-nas para graus disparatos de compreensão. Diga, Diga, olhando em meus olhos venezianos, que o preconceito é solúvel como algodão doce na boca, que as nuvens são incompreensões comestíveis. Porque tudo que eu quero é engolir o mundo. Tudo, tudo, engolir tudo, engolir todo o mundo. E pega, e mastiga, e deglute. E engole, engole toda grama, engole todo sucesso, engole essa mobilização hipócrita. E coloca tudo guela a baixo, e arregaça todos os capilares estomacais, e torne tudo muito sangrento, e deixa o resto em paz. Porque no resto, tomo todas as dores do mundo e fico lá, com minhas palavras egoístas e restritas, com meus afazeres embutidos, com o intrínseco não traduzido, com personalidade refletida. E fico lá, ali. E fico sem palavras. E faço disso rotina. Fala, fala, fala, fala, Carrossel. Fala, fala, fala desse ritual frenético. Fala, fala do silêncio em mudo eterno. Fala.

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