Arquivo do autor:Malu Lima

Sobre Malu Lima

Aguarda-se naquela vazia faixa amarela. Aguarda-se no escuro mêtro, o trem chegar: Tanto de um lado, como de outro. Um ímpar metódico, no meio, cheio de meios, ao que resta toda energia possessiva, ou apenas positiva. Sem mais.

Desconstrução do poema

Você sabe como nasce um buraco negro? De possíveis exaustões estrelares. Dizem que tudo que entra no horizonte dele é destruído. Até mesmo lembranças, até mesmo sentimentos. É tudo esticado, é cientificamente considerado o fim do tempo.

O tempo é relativo, disse Einstein.

Já se passaram dois meses.

Você sabia que a força da gravidade é infinitamente menor que forças bem mais subjetivas no núcleo de um átomo? 

A resistência da gravidade é bem curiosa, pensando que quando se cai de um avião você desce a mais de 200 km por hora. Não sei se a aceleração é constante, o paraquedas me puxou a tempo.

Dois meses.

Na impossibilidade de sentir, sofra, me disse uma amiga uma vez.

Na impossibilidade de sentir, resolvi viver. 

E eu vivi. 

Vivi enquanto saltava de um avião a quatro mil metros e senti que voava. Foi bom.

Vivi quando senti medo.

Vivi quando fui escalar.

Vivi quando passei cinco dias no meio de uma floresta do cerrado sem energia elétrica, ou rede de celular. 

Também lá não tinha ventilador para espantar pernilongos, ou as aranhas, gorilas e cobras. Não, não tinha uma tomada sequer. 

Vivi com muitas picadas.

Eu vivi no dia em que pedi bigorna porque era perto. Chegou frio, meu pé está frio, não tive você.

Vivi no dia em que quis pizza de brócolis e pedi uma qualquer aqui por perto, mas não era a mesma.

Vivi quando entendi que não era mais pizza na sua casa e hamburguer na minha, mas continuam escrevendo o mesmo Malu na caixa.

Eu entendi que vivia quando confundi a entrada da anchieta para minha casa e me dispus a ir reto, o tão velho e tão conhecido caminho para a sua casa.

Vivi quando senti falta de um cachorro, e adotei um.

Vivi quando via prismas na rodovia e ria de canto de boca.

Vivi quando reli mensagens e revi fotos.

Quando meu pneu estava com 8 libras mesmo depois de eu ter mandado consertar.

Quando vi dígitos negativos na minha conta bancária e ri disso.

Quando cantei no karaokê até o dia raiar, e quando cantei sozinha e dancei sozinha. E cozinhei sozinha.

E também quando senti sua falta.

Vivi com os desafios de cada dia, e com um convite para escrever um livro. Deus sabe o quanto esperamos por isso. 

Vivi sem ter você para ligar para contar.

Também quando comi comida italiana com seus pais, dia desses, eles não saem de mim e nunca vão sair, acho que a esse sentimento devo me adaptar, porque amor não se mata, né? 

Vivi sem tantas brigas e insegurança. Aprendi que não nasci para me sentir insegura.

Vivi depois do vídeo que você mandou as três da manhã, também rindo de quando você dizia que nunca fez isso. Então decidi encarar apenas como um ato falho.

vivi quando resolvi fingir que não vi para que você não se sentisse mal em ter mandado.

E ah, na floresta do cerrado aprendi uma oração havaiana que podemos fazer para aqueles que passaram por nós.

Se trata de “sinto muito, me perdoe, eu te amo e sou grata”. 

Podemos fazer para nós mesmos também. Tenho feito bastante, para mim, para você e para algumas pessoas.

Vivi ao lembrar de um par de canelas, e por Deus, será que ainda existem? 

Vivi ao rezar para meu anjo da guarda. Aprendi que todo dia de manhã devemos autorizar ele a agir em nossas vidas, sabia dessa?

Vivi ao pensar que por nunca ter falado coisas tão feias, minha paz seguiria ao pedir desculpas, mas meu medo me impedia de pedir, toda vez que lembrava que você me pediu para sumir.

Eu não estou louca, mas eu errei, erramos, e assim eu também vivi.

Na impossibilidade de sentir, viva.

Na possibilidade de viver, viva também.

Na possibilidade de um buraco negro, sinta.

Ao horizonte de um buraco negro, entre em exaustão e se transforme em um. Condense energia suficiente, maior que a gravidade e que a atração entre quarqs,

Romanticamente prefiro acreditar e continuar acreditando que sentir é mais forte que isso.

E quando eu cair num buraco negro,

E quando todo sentimento se esticar até romper, 

E quando minha gravidade for desafiada, e meu tempo acabe

Espero que minha energia voe e flua e você possa senti-la, 

E o mundo possa senti-la.

Para que eu enfim, já não mais viva,

Mas viva,

Viva já sem tanta carga, tanto medo, tanta saudade,

viva só sentimento,

quantas vezes forem necessárias.

e de repente,

nos vemos.

mais e mais.

e de repente,

Estamos fortes.

Estamos,

mais,

e fortes.

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Siga em frente

Quando era criança, tinha o hábito de imaginar uma redoma em volta de mim. Me sentia distante do mundo de fora, e protegida. Não sei exatamente em qual momento da vida resolvi que essa redoma era desnecessária e que, assim, poderia abraçar o mundo. Mas queridos, obviamente a criança nunca esteve errada em estar em uma redoma.

Vivemos pouco tempo, não sei se tempo suficiente, nunca se sabe. Vivemos coabitando com pessoas egoístas, centradas em seus próprios self, em terra de sentimentalismo não se pisa e nunca sabemos quem é do bem e quem não é. Nunca no mundo as pessoas assumiram um discurso tão vitimizante sobre ser passado para trás, ser enganado, ser traído, assaltado, morto ou pisoteado. Já é claro a banalidade disso tudo.

Na medida do possível, se blinde de corações cegos e, sobretudo, de quem não quer enxergar. Proteja seu eu, deixe-se íntegro como é, mesmo exposto a todos os tipos de críticas e erros que sejam, eventualmente, escarrados o tempo todo. Mesmo dos erros inventados. Mesmo dos medos induzidos. Tenha mais medo de se perder do que de perder qualquer outra pessoa. Siga em frente.

Você tem a você, a sua sombra e ao espelho. Não viva solitário, mas isso tudo deve bastar caso esteja solitário. Esteja ciente de suas qualidades, ninguém tem o poder de subjulgá-las ou minar sua auto-estima. Deixe essa última como seu bem precioso a ser protegido. Cuide de você, saiba sobre você, domine seu próprio conteúdo e compre o seu peixe: você sempre valerá a pena, invista no que te faz bem. Siga em frente.

Se reencontre todos os dias da vida. Lembre das expressões que usava há dois anos atrás, numa época feliz. Lembre das lágrimas do mês passado, lembre dos valores que te passaram e do que aprendeu nas viagens que fez. Recorde conselhos, conversas, conversas profundas. Retome conversas profundas, sinta bem quem te acrescenta no papo que for, aprenda com o outro, se aposse de conhecimentos esporádicos e de conversas banais. Siga em frente.

Valorize tudo que está para dentro, todos os livros que leu, as músicas que ouviu, os filmes que viu, tudo aquilo que assimilou. Lembre de que você aprendeu polinômios e tabela periódica, e que passou nas provas de inglês. Lembra que já foi do céu ao chão e sobreviveu. Lembre que dentro de você há sempre mais espaço preenchido do que vazio, e que esse espaço precisa ser lembrado e ressignificado como algo que te empodera, acrescenta, cresce e significa. Se valorize verdadeiramente, siga em frente.

Não seja conivente com a falta de respeito, falta de vivência ou falta de amor. Na medida do possível, sinta amor e, acima de tudo, aventure-se, mas sinta-se amado, caso contrário não vale a pena. Se critique, receba críticas, mas por favor selecione aquelas que vem realmente com objetivo de acrescentar e te fazer crescer, rejeite tudo que queira te deixar para baixo. Tenha serenidade para discernir ambas, e siga em frente.

Não desista de você, e caso tenha pensado nisso, algo está muito errado. Procure ajuda, você tem sua redoma e precisa aprender a usá-la. Siga em frente, para os próximos passos, com a certeza de que não vai ser como antes. Nada é como antes. Daqui um minuto, uma hora, um mês: se agora dói, saía desse lugar que te machuca, vista sua redoma e busque os bons. Em nome do seu eu: por favor, siga em frente.

 

Com amor.

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Você sabe como nasce uma flor?

Primavera. As abelhas estão sumindo. No quintal da minha tia avó eu ouvia, quase que diariamente, que o cântico que ardia lá fora era do beija-flor da árvore, que ia até ali tomar a água. Ela deixava água, potes de água, pendurados na árvore velha, para assim atrair o cântico, toda santa tarde. Um ritual. A árvore era cheia de flores vermelhas que se proliferavam, e àquela altura eu já queria saber de onde vinham. “As abelhas, meu bem”, me diziam. Quais abelhas? Eu nunca via as abelhas fazendo o trabalho delas, eu não via o pólen sair dali e vir para cá, nem o via fazer o caminho de volta nas patinhas do inseto. Então, posso dizer que essa coisa de acreditar no nascimento de flores é antes uma fé do que qualquer coisa. Você acredita, mas não necessariamente vê.
Verão. As abelhas estão sumindo e isso é de certo modo alarmante. Como é depender de outro ser vivo para ter o trabalho feito, às expectativas correspondidas ou a perpetuação de sua própria existência? As flores estão sujeitas a um destino fadado, tente imaginar uma vida sem flores. O jardim de Versalhes e tantos outros suntuosos vão virar balela, as mesas de casamento e da formatura não terão cores ou beleza, os mocinhos apaixonados vão ser obrigados a enviar chocolate em um mundo onde a intolerância à lactose está perpetuada, o ar vai ficar mais raro, perfume mais raro, beleza-de-todo-dia mais rara.
Os professores de português terão de reinventar metáforas, não ouse a comparar indiretamente ou diretamente ninguém ou nada a uma flor. O que são flores?
O vento de fim de tarde sopra forte, inimaginavelmente forte. O calor faz o drama do meu pensamento corroer o corpo encharcado.
Outono, e o vento mantém firme. Quem precisa das abelhas se esse ventão todo pode espalhar brisa e pólen aos quatro cantos? Mentira, essa ideia das abelhas sumirem ainda é decepcionante, mas acontece que os fatos são esses: o pólen precisa ir e precisa cair naquele lugar específico. Oitenta e cinco por cento das abelhas são solitárias, elas tem uma missão de vida. Cem por cento dos seres humanos são solitários. Como as abelhas solitárias. Eles tem uma missão na vida, um pólen a ser entregue, com cada grão inserido no caos. Não existe tempo certo, e eles não sabem disso porque pensam estar em uma colmeia. Talvez por isso eu vejo tantos seres humanos e tão poucas abelhas.
Inverno. Vá lá, sente na frente da lareira, se pergunte onde estão as flores para eu te dizer que nem tudo são flores. Quase não tem vento e não vejo abelhas, o clima não está propício para isso, e sabe de uma coisa? Tem dias que o clima não está propício a nada. Tem dias que temos que agarrar a corda, fechar os olhos e dizer, é isso aí, camarada, exerça sua resiliência. Às vezes a paciência é a única coisa que você pode fazer sobre as coisas estarem como estão, não existe outra saída senão esperar. E quando você espera, enquanto espera, estará exercendo uma decisão sábia ao reconhecer que, no momento, não consegue tomar decisão alguma. Então, a ordem dos fatores não altera nada, a menos que você coloque os fatores em ordem e espere em conforto, de preferência com vinho e chocolate. Sem flores, sem abelhas, a vida anda.
Primavera. E elas estão aqui de novo, sorrindo para o vento. Ainda não vi abelhas, ainda não vi o pólen e talvez o sinta nos meus espirros, mas os jardins estão bonitos. A pensar, qual a chance de o pólen cair no lugar certo? Qual é a chance de existir um negócio chamado po-li-ni-za-ção, polinização, gente, como isso é possível, como nasce uma flor?
Se uma flor nasce do mais improvável, de abelhas oitenta e cinco por cento solitárias, quais são as chances de seres humanos renascerem com ajuda de outros seres humanos, cem por cento solitários?
As abelhas estão sumindo, e isso é alarmante. As abelhas estão sumindo, e isso é decepcionante. As abelhas estão sumindo, existem dias sem vento, e as flores continuam a nascer, ano após ano. Então não suma. Feliz Ano Novo.

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500 dias quaisquer

Eu tinha prometido pouco tempo antes, o que era necessário e nós dois sabíamos ser necessário. Prometera que até que chegue o próximo dia, deveria deixar o anterior a ele para trás, como as coisas sempre devem ser, ou não? Olhei pela janela tentando encontrar em seu olhar a confirmação para isso, como sempre faço quando se trata de nós dois. Mas a confirmação não estava ali, e naquele determinado dia eu resolvi que deveria abraçar essa certeza sozinha. Que viesse o próximo dia, porque o nosso tinha ficado para trás.
Naquele determinado dia, resolvi tirar as coisas de dentro das tantas caixas de papelão da mudança, e bem queria eu me livrar de todas as coisas e de todo bem material que estivesse perto de mim. Era o que eu fazia dentro do meu (novo, desconhecido) quarto.
” Essa caixa de lápis de cor, você usa? você vai usar isso?”
Merda. Mordi o lábio. Pra quê eu usaria? Eu não pinto. Eu não uso aquela caixa, e você é, definitivamente, o motivo para eu querer deixá-la intacta. Nem um único lápis apontado. Nenhum precisou, mesmo quando ganhei um livro de colorir francês e pintei avidamente mandalas, fazendo força para que eu precisasse ao menos APONTAR um daqueles lápis, Deus. Mas não, era uma luta interna, e uma das minhas partes não teve êxito, de modo que eles continuavam ali.
Cara, te odeio tanto, você é tão egoísta, onde você estava para não estar me dando essa resposta? Sempre egoísta.
Eu vou usar aquela caixa? De tantos modos. Para tantas coisas. Para pintar um morango na parede branca da sala. Para levar dentro da bolsa e fazer de batom. Meus filhos usariam, um dia, se eu tivesse filhos. Certamente eu usaria. Mas não. Dentre todas as coisas materiais das quais queria me livrar, era a que mais fazia real sentido me livrar. Mas não, de novo não, não vou usar, e eu não tinha mais o que falar.
Então pensei na minha promessa, e pensei que era a hora, enfim. Fala que não. Deixe que leve, vai ser útil para ela. Vá lá, quanto custa uma caixa de lápis de cor de quarenta e oito cores? Que custe quinhentos e cinquenta e sete reais, paga. Se precisar de uma nova, paga, mas não vai precisar, sabe porquê? Porque você não usa. Então, fala que não, não vai usar.
Joga essa caixa pela janela, não tem problemas, ninguém vai querer. Leve a um antiquário, onde enterrem sentimentos, o mesmo da onde você tirou aquele telefone vermelho dos anos 60 para me dar de aniversário.
Não era só uma caixa de lápis de cor. Lembra porque você me deu? Eu não tinha a cor nude na minha caixa da pré escola. Só tinham quinze. Porque eu precisaria de mais?
Acho que desde criança preferia os tons sóbrios. Eu não usava o pink, queria nude. Hoje, se fosse escolher uma caixa, compraria de novo quarenta e oito cores, e tiraria duas: nude e cinza. E, então, só usaria elas. Você sempre soube disso, o tipo de coisa inútil que não se conta para as pessoas. Aliás, será que nas caixas de quinze insistem em não colocar o nude ainda? Preciso pesquisar isso.
Poucos dias antes do dia em que ganhei aquilo de você, fomos assistir a “500 dias com ela” no cinema. Não lembrava do filme. Nunca lembrei do filme. Dizem que é muito bom, e eu respondo que eu nunca o vi. “Sério, é bom? que coisa, é o que dizem, pois é, preciso ver isso aí.”
De certa forma, era verdade, e eu nunca pude entender o porquê esse era um vão enorme em minha memória. Nem um vislumbre de imagem. Você saiu contente do cinema aquele dia, lembra? Você amou a trilha sonora.
Para que eu manteria a caixa? Queria que você tivesse essa resposta, depois de me dizer que guardou o relógio de bolso. Fiquei imaginando onde ele estaria, no fundo do seu guarda roupas cheio de calças que você nunca vai mandar apertar. Naquela noite, coloquei a maior camiseta do armário e andei inquieta pela (nova, desconhecida) sala. Coloquei a trilha sonora de “500 dias com ela” para tocar. The Smiths. Bom gosto, quase sempre.
Por que raios eu não me lembrava? Me lembrei de locar. Eu esqueci. Tentei pela internet, dei pausa quatro vezes e desisti no play subsequente.
Hoje lembrei. Hoje peguei o DVD, coloquei, sentei naqueles dois sofás da frente da televisão já que não conseguia enxergar nada sem óculos. Não lembrei de trazê-los, como sempre. Decidida a ir em frente e ver, encasquetada na ideia de que  esse filme poderia ser libertador. Hoje tinha brisa da janela. Então, pude entender algumas possibilidades sobre os mecanismos psíquicos que eventualmente me fizeram esquecer sobre o filme.
Eu parei de espirrar quando sento naquela sala, sabia? Acho que foi o corticóide que andei tomando, deve ter sido de alguma utilidade. Odiava tomar corticóides, né? Mas voltando ao filme, se devesse mesmo voltar, voltei, até o fim.
Bom, quer dizer que tudo isso foi porque histórias de amor acabam? Bem, é isso, então. Eu chorei, porque eu quase sempre choro em filmes, você sabe.
Lembro que aquele dia no cinema eu chorei muito também. Na recusa de saber o que iríamos ser? Talvez. Mas somos, baby. De qualquer forma, somos.
O mundo está aí, nós só passamos por ali. O amor está aí.
Histórias de amor acabam, o amor não. Lembre, me lembre se eu fraquejar, de agradecer que tudo continue intacto nessa nossa cabeça enorme, como quando eu te mostrava uma música nova, cantando ridiculamente, e você ficava olhando com cara de bobo dizendo que acabou de encontrar uma louca ou como quando você me deu uma rosa para cada olho, de cada dia que passava longe. Poderia te dar milhões de rosas agora, porque você não precisa passar, nem nos dias que eu te odeio, nem nos que eu te amo.
“Não sei se vou usar esse lápis de cor”.
“Na verdade, vou usar sim. Deixa aí”.

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Se eu pudesse te ensinar sobre paixão

Se eu pudesse controlar o que vem depois, eu juro que te pouparia das dores que os acontecimentos bons ou ruins traem consigo. Mas eu te peço que não se traumatize, não crie caso. Eu sei que deve ter doído por uma, duas, cinco vezes, mas não faça caso, tire isso de dentro de você, abandone essa ideia.
Se eu pudesse te ensinar sobre se apaixonar, eu te diria para ir à uma temakeria. Ninguém come temaki com glamour, ninguém de fato SABE como comer um temaki sem derrubar uma quantidade significativa de peixe ou balançar a cabeça de acordo com algo que o outro fale enquanto tem um pedaço de alga pendente no dente. Eu desejo que a pessoa por quem você se apaixone te aceite do jeito que você é, e que essa pessoa não ameace te achar feio ou sem graça mesmo na situação em que você fica mais deplorável, seja babando peixe, seja suado após a corrida, acima do peso após um período de ansiedade ou doente na cama de um hospital. Se apaixone por quem te veja sempre de um jeito terno, quem sempre vai te achar bonito e apreciar seu sorriso, independentemente das circunstâncias.
Se eu pudesse, te falaria, não crie expectativas, mas se apaixone por quem te surpreenda. Com uma carta, com comida, com flores amarelas, com uma visita, uma montanha-russa, música e um violão, ou pela simples presença. Existe um ponto em que as coisas vão se tornar bastante tediosas, e não se engane, isso também vai acontecer com você, e não apenas uma vez. Isso acontece frequentemente, com todo mundo. A esse momento, você vai desejar ter escolhido alguém que te surpreenda, com os menores detalhes, ainda que sem grandiosidade, um pouquinho por dia. Você vai desejar ter do seu lado alguém que te tire para dançar em um dia depressivo, e se isso soar piegas, alguém que tenha ingressos para o jogo do Domingo quando você se julgar cansado para isso. Se apaixone por alguém que te levante da cama quando você não tiver condições para isso, e não por alguém que te deixa de lado quando sua condição é essa.
Se eu pudesse te dar um conselho, te diria para escolher quem te faz sorrir, ou quem sorri com você, mas desejo que essa pessoa seja capaz de aceitar seu lado feio, porque ele existe. Espero que essa pessoa esteja disposta a aceitar o seu “não” e também o seu choro, e torço para que você não tenha vergonha de assumir suas fraquezas e seus defeitos, por mais gritantes que sejam. Escolha quem te admira e quem não te faça se perder de você, de quem você é e do que você faz, esteja você ganhando o Nobel ou desempregado.
Se eu pudesse te dar um conselho sobre se apaixonar, eu diria para ficar do lado de quem te faz achar que o mundo pode acabar hoje, quem te faz sentir que vai vomitar felicidade e que você pode girar sua cabeça incontrolavelmente, quem te faz achar que o tempo parou, o mundo embelezou e ninguém mais está ali, mesmo que você esteja no meio da Avenida Paulista. Se apaixone por quem te faz se sentir no filme de sua própria vida, porque a paixão traz consigo romance, e, algumas vezes, dor.
Se apaixone por quem te conduz com a mão, venda seus olhos e te leva ao cinema, para a praia ou para o outro lado do mundo. Caía de paixão por quem te diz sim e topa viver ao seu lado, quem pondera, quem fala muito sim e também sabe te dizer não. Se eu pudesse te ensinar sobre a paixão, te diria que arrisque até as últimas circunstâncias. Se eu pudesse te ensinar sobre paixão, te diria para comprar a briga, para não abandonar, não ter medo, cair de cabeça. Te diria: fique com ele! Fica com ela! Estou torcendo, o resto não vale a pena! E se eu pudesse te ensinar, te falaria para achar o amor, porque, o amor? Ele fica. Ah, ele fica.

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Agora é que são elas

 

amigas

 

Meus amigos homens que me perdoem, mas peço licença para um adendo que pode ser visto como três pontos e que, muito provavelmente, ainda contemple a vocês. Porque é incontestável, em um momento bem específico da vida, que são elas: as que te trazem um sorriso, um abraço, a bronca, um copo de água com açúcar, meio rivotril, colo, brigadeiro ou uma garrafa de vinho.
São elas que te passam o telefone daquela dermatologista top, o endereço da feira de orgânicos ou te matricula em algum cadastro de academia sem mais, nem menos. Elas sabem só de olhar, e entendem pelo silêncio. Vocês também se falam em silêncio, muitas vezes.
Amigas queridas, vividas, indispensáveis, e entendam como quiser. Não há outra pessoa no mundo que segura sua onda quando acabou o dinheiro para o táxi da volta, que te avisa sobre como seu rosto está cintilante porque você resolveu usar protetor solar à noite, que te abriga no sofá da sala por treze meses depois do seu divórcio ou que aparece com chocolate naquela TPM em que você já rezou para todos os santos ou orixás para passar, sem êxito.
Amiga para aquelas horas em que você surtou três vezes seguidas porque acha que não vai dar conta do TCC, do emprego, da faculdade, do plantão. Amiga para comer coxinha de domingo, para te fazer rir de comentários disléxicos ou te colocar a par da vida depois de passar três meses sem ligar a TV, e também amiga para comentar o último episódio de alguma série da Shonda Rhimes (bem como dividir a raiva contida após esse último tópico).
São elas que te deixam ciente dos seus momentos de retardo, que te carregam nas costas até o bar mais próximo naquela sexta feira em que você está morrendo depois de trabalhar doze horas, te obrigam a correr a São Silvestre na chuva enquanto ouvem atentamente (ou não) você contar a mesma história da briga com seu namorado, no fim de semana passado.
Amiga para não cansar de você, e que mesmo assim cansa, profere xingamentos, grita e bate a porta do seu carro como se no mundo não existissem geladeiras, e fica tudo bem. Aquela com quem você briga direto e reto, mas sabe que é para quem pode voltar, com quem já deu mil mancadas e de quem recebeu mil e uma de volta, mas as coisas não mudam.
Para brindar seu casamento ou o delas, escolher o carrinho do bebê, ir fazer a unha ou retocar a raiz, ser seu álibi quando ninguém mais entende ou pode entender o mundo em que você está. Esquecem de responder seu whatsapp, esquecem também o dia do seu aniversário, e ainda mandam um dane-se. Também te socorrem nos domingos de manhã e todos os outros dias da semana, e te perdoam pelos seus erros, até mesmo quando você é incapaz de se perdoar. Estão logo ali, até a última gota.
Agora é que são elas, que estão longe e não mudam nem um tantinho, que você não deixa de falar nenhum dia, ou que se passam anos sem trocar uma ideia, mas é a mesma coisa. São elas que sabem dos seus transtornos mais profundos, suas crises existenciais, dos seus parafusos a menos das suas nóias a mais. Também são aquelas que olham discretamente para o seu traseiro quando você está desesperada por acreditar cegamente que não está tudo bem naqueles dias, e depois fazem uma assertiva positiva com a cabeça no maior estilo “tá tudo bem, não foi dessa vez”. Sabem contar seus dramas familiares melhor que você. Elas te avisam quando não dá para te defender, amiga, sua louca.
Essas amigas de vida, de trabalho, de infância, de café, do clube, da academia, de família, da Igreja, do cursinho, da faculdade, de encontros. Nosso presente da vida para a vida. Amigas, amigas e amigas.

 

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As mil cores

Se o desprazer dos dias sufoca qualquer angústia do espelho
Agradeça
Se sua sombra consola seu zelo e desapego
A abrace
Se sua essência grita ao vento desamparo
A deixe
Se sozinha se contorce aos quatro cantos
Acalente sua alma
Silencie seus imperativos
Obedeça a nada
E me tire para dançar

Se na dança ei de estar
Duvide
Se a dança acabar
Não deixe
Se a música não tocar
Toque
Se minha mão hesitar
A segure

Se a vida desandar
Ande
Se a vida se perder
Apresse
Se a perda se extendeu
Chore
Se pensar como eu
Viva

E se acaso a vida
te abandone como tal servo
a te deixar no múrmurio de um beco
qualquer seja
E se acaso a vida
te deixe de lado
E se acaso a vida
me deixe na rotina
me deixe
me mate.

Feliz dia da poesia!

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Tempo vendido

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Assisti há alguns meses o filme “O preço da amanhã”. O filme já é velho, de 2011, mas vou dar um resumo breve para situar a quem ainda não viu. Trata-se de uma época futura na qual a ciência descobriu uma forma para que as pessoas parem de envelhecer aos 25 anos, e, a partir de então, trabalham e lutam para conseguir, possivelmente, um merecido tempo de vida. Os ricos têm muito tempo, os pobres quase nada, os ricos tiram dos pobres, ou seja, pode-se dizer que na ficção o tempo é tido como moeda de troca. Lembrei desse filme hoje, enquanto comia minha salada. Pedi salada, frango desfiado, purê de batata doce e suco de melão. Me orgulhei de ter optado por algo saudável, e pensei comigo, ainda bem que inventaram esses serviços delivery fitness, o que seria de mim? Não teria tempo de preparar uma refeição dessas, imagina, seria o tempo de desfiar o frango. Pois bem, o insight veio: comprei meu tempo.
Vende-se muito, mas muito do que se vende é exatamente isso: tempo. Me vi assustada com o fuá da nossa estrutura social. Como fora, não tenho tempo de ir ao mercado, de preparar a comida ou lavar louça. Estou sem tempo, não rola de limpar a casa, vou chamar a faxineira. Não há tempo de ir ao banco, de lavar a roupa, tirar o lixo, fazer compras, levar os filhos para a escola, trocar uma lâmpada, pedir o gás, comprar um filtro novo, passear com o cachorro, levar o sapato para arrumar. E então, o que fazemos em relação a todas essas coisas as quais seríamos bem capazes de fazer? Pagamos a quem o faça. Compramos o tempo de alguém, geralmente por pouco, muito pouco. E então, enquanto você curte a vida na Polinésia Francesa ou simplesmente trabalhando com o que gosta, tem alguém deixando a vida passar por uma gorjeta qualquer e fazendo o que você chama de serviço sujo.
Foi ignorante da minha parte não ter notado, a príncipio, a essência de uma ficção a qual julguei simplesmente como um romance bobo, porque esse não é um futuro longíquo: nós vivemos na era em que o tempo virou produto e também moeda. Muitas pessoas vivem da venda do seu próprio tempo, o que é triste. Sim, elas precisam disso para sobreviver, precisam desse dinheiro e desse trabalho, mas ao fim de tudo, é isso mesmo? Será que elas realmente gostam disso ou é apenas questão de necessidade? É um tempo perdido ou um tempo vendido? Tempo vendido é a mesma coisa que tempo perdido? Depende.
A história vai além. Ainda existem as opções gourmetizadas das coisas. Paga-se para comer em um restaurante por prazer, para ir em um museu, para aprender um novo idioma. Paga-se pelos bons tempos e para quem viva por você os tempos ruins. Que tipo de pessoas viramos então? Semi-pessoas, pessoas divididas ao meio, jogamos a outra metade fora. Nos tornamos o tipo de ser humano que despreza o prazer pela vida e eleva padrões que não devem ser elevados: levar seus filhos para a escola não é, de forma alguma, menos importante do que levá-los ao melhor lugar do espetáculo de ballet na temporada Russa. Pelo contrário. Você vai criar pessoas melhores se estiver lá, esperando o portão abrir e mostrando que faz questão da sua educação e dos seus problemas cotidianos, afinal, os filhos também precisam saber que você se importa. Aliás, eles precisam ter certeza disso. Você só vai ter uma casa menos empoeirada quando realmente aprender a limpar, e ninguém vai explicar ao sapateiro como você quer, exatamente, o verniz retocado. Ninguém vai viver a sua vida por você como você mesmo faria, e sabe porquê? Porque estão todos preocupados com suas próprias vidas e com seu próprio tempo perdido/vendido.
Então, trabalhe, e em algum momento você vai mesmo precisar comprar seu tempo e também vendê-lo. Mas venda fazendo aquilo que goste, e compre quando realmente julgar necessário. Abrace seus filhos, ensine alguém a andar de bicicleta, encontre sua irmã para um café, prepare seu próprio café, vá ao mercado, leve seu primo ao parque do prédio, tome conta do seu avô. Porque nessa de vender e comprar, tem sempre vida se perdendo, e guarde esse segredo: ela é sua e ela passa.

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Para o mundo

intern

Ontem fui ver a nova comédia de Nancy Meyers, “The intern”, e confesso que, de cara, me encantei antes pelo elenco que pela sinopse em si: Anne Hathaway e Robert De Niro, duas peças chaves, admiro. Me deparei com uma daquelas comédias simples e que te fazem sair sorrindo do cinema, mas dentro do próprio clichê que carrega consigo, há algo de sutil. É sempre o que faz o clichê sair do clichê, não é? Pois bem, vem um spoiler de leve aí, se for daqueles que tiram lições de filmes por si mesmo, pare por aqui.
A princípio acreditei que seria mais um desses filmes em que o mais novo aprende lições de vida com o mais velho, e de certa forma, essa é a essência, mas a história coloca isso de uma forma atual e peculiar. Jules, personagem de Hathaway, é (mais uma) workaholic, que coloca a ansiedade a frente das coisas. Você consegue sentir o espírito dela se contrapondo ao seu, cheguei a perder a paciência, a personagem foi tão bem encenada que eu mesma fui levada pela onda de nervosismo dela. De Niro chega para ensinar a lição que uma geração inteira precisa aprender: calma.
Em época de prazos, carros, fumaça, buzina, smartphones e laptops, já é claro que as pessoas se perdem de si mesmas. Pensei esses dias sobre o quão cansada estou de pessoas blasé, mas refletindo mais a fundo, canso mais dos negativistas. Eles olham tudo da pior perspectiva possível, se você aponta uma solução, a olham com a crítica na ponta da língua. Sabem mais, entendem mais, são mais experientes e menos ingênuos: é óbvio que o seu projeto tem mil problemas de execução e outros tantos na logística, e é por isso que sempre chegam a conclusão genial de que não vale a pena tentar. Um quê de Blasé? Talvez.
Então, vamos lá, mais calma, pessoal. Fazendo o favor, pare o mundo que eu quero descer. Quero sair dessa história mal contada em que as pessoas não tentam viver por medo de dar errado, não apostam porque previamente calculam chances e estatísticas, consideram mais os ” e se” do que os “vamos então”.
Quero um mundo de otimistas, que estimulem uns aos outros a ir em frente, a topar apostar o vaso da avó no bingo, a investir naquela empresa que sua intuição diz prometer, mas todos criticam, abrir o restaurante que você sonha há anos, e até consegue bancar, só não sabe se dá conta.
Grandes pessoas impuseram grandes ideias sob a visão de críticos, pessimistas e blasés. Essa é a lição que o personagem de De Niro nos dá: Você escolhe em qual lado vai estar. Você opta por ser Nicolau Copérnico ou o vizinho dizendo que a roseira que você plantou não vai crescer de jeito nenhum, veja se o clima ajuda. Escolha entre ser Mark Zuckerberg e o colega que desistiu do projeto porque pregava o fracasso.
Se sente que é capaz, ignore os pessimistas e os blasés, eles não sabem de nada, só precisam descontar as próprias invejas e frustrações em alguém. Não se coloque como alvo. Escolha entre ser banal e agir. As críticas virão. Receba e mande embora.
E você, ser humano negativo que está lendo isso, pare de dar nó em você e nos outros. Aprecie o crescimento dos outros e se inspire, ao invés de colocar empecilhos imaginários em tudo, cresça você mesmo. É preciso agir sim, com calma, com um passo de cada vez, com equilíbrio. Se guie, tape os ouvidos e vá. Bravo, De Niro.

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Quando você me perdeu

Eu fechei os olhos e desejei estar em uma varanda de qualquer ruela em Viena, observando o papo furado dos turistas logo embaixo. Eles falariam sobre o Danúbio, Mozart, ópera. É o que sempre falam. Mas eu não estava lá, eu só me imprimia por dentro, vãs tentativas de não compreensão. Eu estava sentada na minha cama, cobrindo meus olhos, que estavam molhados, mas eu não chorava. Era só aquele tipo de notícia que você constata, e é dura, mas de tão dura que é te faz encará-la na hora, na vida, no chão, como for, e numa dessas eu fechei os olhos em uma tentativa desesperada de não enxergar. Mas meu amor, era a hora. Eu queria o frio, e o clima estava ameno. Eu queria você, mas foi naquele fatídico dia, e não teve escape, desculpa ou o menor jeito. E então, você me perdeu, não foi?
No dia em que você me perdeu, era clima de uma estação. Minha pele não sentia nada específico, porém. Eu acordei indiferente, e isso não é bom, porque em alguns momentos da vida já aprendi que a gente precisa sentir o tempo todo, amor, amizade, ódio, fúria, calor, frio, o que seja. Mas eu não sentia, e então liguei para uma amiga, na incapacidade de sentir, sofra, ela me disse. Eu precisei de você, assim como preciso em vários momentos do dia. Eu precisava contar qualquer coisa banal, precisava de você no sofá, no quarto ao lado, contando uma piada ridícula ou me consolando com uma conversa boa sobre um dia ruim, mas você não estava lá.
O dia quando você me perdeu, tocava The Beatles na 100,3 FM, eu abri a janela do carro para respirar melhor, reclamava dessa falta de ar subjetiva há algum tempo. Eu fui trabalhar, comi um pão na chapa, e na ansiedade de qualquer vazio que viria no momento seguinte, tomei ao menos quatro copos de café sem açúcar. Sentei em várias cadeiras, e sentia que iria quebrar todas elas, com o peso que carregava.
Eu passei aquele dia inteiro relutando contra forças internas que eu nem ao menos sabia que conhecia. Eu me distraí com qualquer primavera da rua, e também tentei sorrir, sem êxito, sem rir, nem chorar, nem sofrer, nem sentir. O dia em que você me perdeu, ventou. Ventava bastante, e de noitinha fui fazer uma caminhada, eu te disse, não? Mas sua resposta eram apenas palavras, e suas preocupações sempre foram para dentro, nunca para fora. Naquele dia, suas palavras passaram a ser para dentro, também. Era tudo para dentro, toda decisão sobre você, lembra?
No dia em que você me perdeu, o vento, a exaustão, o corte que fiz no meu dedo cortando batata no almoço, não me fizeram sentir. O sereno não me comoveu, não existia sofrimento, eram boas lembranças e muito vazio. E meu amor, como estivemos vazios, não foi? Como nos faltaram palavras, músicas, danças, filmes, mãos. Como nos escapou a vida no meio de tanto sentimento? De repente os carros passavam e estavam parados, pessoas falavam caladas, olhares suplicavam indiferentes. O fatídico dia em que você me perdeu, eu já não sabia se o porto seguro que tive para mim, de fato, um dia existira.
O dia quando me perdeu, você ameaçou falar, eu fiz que falaria, mas ninguém falou, e por palavras mal ditas e não ditas eu estive lá, na minha cama, lembrando da voz que sempre me diz a hora de ir embora. Eu tapei os olhos e me recusei a ver. Eu te odiei por ter feito isso com a gente, eu te odiei por me fazer sentir isso de querer te deixar, eu te odiei várias vezes por abrir essa maldita mão e ter deixado eu escorrer pelos seus dedos. Eu gritei que fechasse, eu te pedi que me abraçasse e me livrasse da queda livre. Mas se aproximava a hora de ir embora, que independe de exaustões particulares e peculiares. Quando a gente se incapacita de ir, a vida empurra. Não guarde mágoas, não me empurraram. Ouvi o conselho da minha amiga, e, no dia em que você me perdeu eu sofri. Sofri por te odiar e mais ainda por me odiar, por te deixar, por te abandonar, por não dar sinais, palavras, ou o que você queria de mim. Eu sofri quando olhei para o vazio que fitava enquanto me dei conta: você me perdeu. Eu chorava enquanto repetia para mim, você me perdeu. E pela primeira vez no dia, eu senti alguma coisa, eu senti forte e dentro.
Eu aprendi. Aprendi que seja lá o que aconteça com a gente, independentemente de quem estiver ao nosso lado, é necessário sentir, todos os dias e o tempo todo, como se tivesse um gatilho armado em direção a você, te obrigando sentir uma vida inteira por todo o segundo seguinte. Não adianta sentir fraco, com medo, acuado. De nada serve sentir só para dentro, a gente precisa emanar sentimento. Então, veja bem, sinta, mas não seja egoísta, no que puder, sinta junto.
Era um clima ameno e você me perdeu. Mas nessa de me perder, quem me achou fui eu.

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