Arquivo do mês: dezembro 2014

Tempestade

frida

Maria Adelaide Amaral disse sobre o relacionamento de Frida Kahlo e Diego Rivera: “tempestade”. Não sei vocês, mas eu de certo modo invejo o humor tempestivo desse amor. Ambos tinham personalidade forte, bem sabido, embora em diferentes sentidos. Não vejo nada melhor que um amor tempestade. Amor morno não aquece, não esfria, não sacode. O que não é tempestade é chuvinha, não faz sentir. Enquanto chuvisca lá fora, tudo que se quer é cobertor e sono. É calmo demais, é sozinho demais, é curtir uma descoberta própria, exclusiva e interna. O amor morno é um tanto egoísta, se leva de mão dadas, supre aquela felicidade à qual se chega, não exatamente a que se almeja. Amor morno todo mundo acha lindo, todo mundo quer paz depois da desilusão. É amor amigo. Ele é um amor seguro, monótono, tedioso, mas como todo amor, é válido.
Já o Amor tempestade é aquele em que se deseja ficar em casa, com cobertor, pipoca doce, filme e alguém do lado. Aquele, justamente aquele. É amor que briga, fecha a porta dizendo adeus, vai para o bar, toma um porre e volta arrependido. Não é amor fácil, é amor de quem tem peito e personalidade. Mas também não é amor fraco, é difícil de tirar de dentro. Do amor tempestade não se tem controle de nenhuma parte, mas ele sempre volta. A gente acha que ele atormenta, mas você sempre gosta de como ele sacode: o coração, a vida, os passos dados juntos, mesmo que sejam passos inseguros e esporádicos. Amor tempestade solta raio, trovão, faz seu coração galopar só de chegar perto. Ele não te puxa pela mão, e sim pelo abraço. Ele não poupa gritos, em nenhum sentido, ele é vivido em dois e por dois. Ele é expansivo, e libertário: vai, mas volta. Erra, mas ama. Você nunca sabe o que vem a seguir, e é o que passa a dar certo sentido àquela felicidade que não se sabe bem como chegou, mas está ali, está aí. Amor que todo mundo acha inconveniente, mas não tem conveniência maior. É amor primeiro amigo, mas depois amante. Amor tempestade não importa se tem vinho, fanta uva, água com gás ou o que for na geladeira. Ele te faz, te completa, e no fim do dia pode-se morrer em paz.
Eu invejo Frida e Rivera porque, apesar de amar um chuvisco, nada me realiza mais do que me molhar na tempestade. Mas é inveja boa, tá?

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Aquela sua parte que ama

Assisti ao filme “Her”, traduzido para o português como “Ela”, no último fim de semana. O filme basicamente se passa entre um protagonista e dois amores, sendo um deles um amor real e outro virtual. Foi assim que eu encarei a situação até os primórdios de final. Se você ainda não viu o filme e não quer spoilers, pare por aqui. O protagonista Theodore tem dificuldade de se desapegar da ex esposa, tem sonhos e lembranças constantes dos momentos bons do antigo casamento e lida com os obstáculos de se envolver com outra pessoa. Acho que disso temos todos um pouco, o medo de se envolver de novo, a preguiça de começar do zero, de um tira e coloca daquelas máscaras inúteis que todos nós usamos e não sabemos ao certo de onde tiramos e quando perdemos. Pior que isso, o medo de gostar, e quando se gosta, o medo de perder, e se não perde, o medo de ficar inseguro. Amar é tão difícil e tão incrivelmente proveitoso e intenso em todas as partes do processo, não é? Mas Theodore não esperava encontrar seu novo amor em um sistema operacional moderno e sentimentalmente tão ou mais capaz que um ser humano. Samantha, o tal sistema operacional, não só sentia como sentia muito. Era capaz de sentir amor e paixão por vários usuários ao mesmo tempo, de expandir seu conhecimento e seu amor em progressão geométrica e demonstrar  uma nobilidade e gentileza de sentimentos que não vemos nos seres humanos. Nós somos egoístas. A construção de nossa segurança em um relacionamento se baseia na exclusividade do sentimento: você só se sente seguro entre quatro paredes de um único coração no qual só cabe você. Inconscientemente compete com amores presentes e passados, sejam eles quais for, compete com a mãe, o pai, o amigo, o ex. E daí se o pobre coitado ainda ama as lembranças do ex? Porque nos tornamos e, principalmente, nos vetamos tão intensamente em expandir e acrescentar amores em nossa vida? Porque todo ex tem que ser, obrigatoriamente, um sinônimo invariável de mágoa e assunto proibido?
O filme me agradou tanto por que ao fim dele (e eu não vou contar o fim), Samantha ama a tantos, e Theodore a outros tantos. Acima disso, cada um preserva o amor pelo o outro e antes desse, o amor por eles mesmos. As lembranças de Theodore em relação a Samantha, que não era bem uma pessoa, eram lembranças dele. De como ele era feliz com ela, de como esse amor o deixava livre para ser quem ele quisesse perante os olhos de qualquer um. Com ela, ele não se sentia julgado, pelo contrário: ele estava livre de outro corpo que eventualmente o aprisionaria. E de volta, por mais que quisesse, ele não podia aprisioná-la. Eram dois livres se amando. Então tive um insight: Mais do que amar Samantha, Theodore amava o seu eu enquanto a amava. Amou o quanto ele dançava, o quanto rodopiava, ria, se divertia e a divertia. E esse amor é saudável, e dele provém a segurança. Esse tipo de amor livre reduz qualquer medo de perda, e dismistifica a velha história de que o medo de perder faz perder. De fato o faz, mas e se não existir medo?
Em resumo, o amor só é amor quando te faz ser aos seus olhos uma pessoa melhor. Você gosta mais de você desse jeito, é uma imagem melhor de si. O amor só é amor quando você consegue ser exatamente aquilo que te faz olhar no espelho e se agradar do que é. Amor é amor quando você aprende a amar a você a ao outro, e justamente por isso sabe que se perder ao outro, eventualmente, uma das partes nunca vai sair dali, porque está em você, faz parte do combo. O amor é genuíno, entra devagar, não faz barulho, nem alarde. Ele dança no ritmo, ele é leve, não é para ser difícil, é tão espontâneo. Quando se ama de verdade, livre, se ama certo. E o jeito certo de amar é amando a todos, porque amor que é amor não vive entre quatro paredes e nem se divide em dois corações: ele se expande e te torna sempre alguém melhor. Essa é a parte que não se perde, e essa é a lembrança que deve ser perpetuada. A cada novo amor acrescente a você novas facetas que te fazem amar mais. Terminou o namoro? Não mate os restos de ex que tem em você, também são partes suas. Deixe aí, acrescente o que te faz bem. Quem você se tornou amando? já sabe? Então agarre, não foge. Essa parte não se perde, essa aí para sempre se ama e será para sempre sua, seu medroso.

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