Arquivo do mês: junho 2015

Aposta

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No frio costumo desligar o ar condicionado de manhã. Sei que as ruas nos exigem janelas bem fechadas. Mas no frio, não. Nas manhãs do inverno eu abro a alma, preciso da brisinha do corredor de ar entre as duas janelas. Foi em uma dessas que parei no sinal vermelho, o carro do lado também entregue aos vários ventos.
” E daí que se você não tentar, vai estar sendo covarde. Não tenta porquê? “. Fulana parecia firme, ao que ciclana respondeu ” Não sei”. Eu, mais que intrusa no papo, me recolhi a minha insignificância, não sem antes ter identificado várias situações parecidas. Se fosse eu, naquela conversa, responderia à ciclana, sem hesitar: medo.

Vivemos o tempo em que não se sabe pelas tantas opções: não se sabe porque o descompromissado é aliado, o casual, o descartável, o de bolso. Não se entrega porque talvez o outro seja de joguinhos, nunca se sabe, está cansado do começo, da conquista, das máscaras. Não se tenta, não tem importância, vamos evitar perder o controle, não se quer mais daquelas pessoas que hoje te ama e amanhã não liga. Preguiça, né? Ninguém quer se expor, passar por isso de novo, ser traído novamente, todo mundo cansou de brigar, de dar errado.

Vivemos o tempo de duas ou mais partes com medo. Vivemos a geração de seres que não tem dimensão da morte, e que acham que vão viver para sempre. A geração que está sempre adiando, por medo, sem saber que o fim, ninguém adia. Vamos encarar: somos duráveis. Tem tempo para acabar. Então, ciclana, tá na hora, meu bem. É hora de se preparar, se conhecer, aprender do que gosta e do que não gosta. Time de se impor, de não deixar que certos limites sejam ultrapassados. E depois disso, ou durante o processo, se entrega: você não vai perder o controle se viver um dia de cada vez. Pára de pensar no daqui uma semana, um mês, uma vida. Pare com isso agora. O fim de um relacionamento, de um negócio, de um ciclo, nada disso vai te matar. E se eu te dizer que se der errado, vai continuar tudo certo? Você tentaria?

Não me diga não sei. Vai, tenta. Na pior das hipóteses vai dar errado, nenhuma história é igual a outra, se você está repetindo padrões errados na vida o erro está na energia ansiosa que você emana. A ansiedade muda em você o tipo de comportamento natural que a vida exige da gente. Se recupere disso, não espere presentes da vida, só viva suficientemente bem para amar os dias que você vive, cada pedaço deles. Irradie o tipo de pessoa que você quer do seu lado, deseje estar em paz. Com você, com a vida, com o amor que tem dentro de você. Ciclana, saí lá fora, abrace o mundo, conheça o que te falta.

E agora me perguntam, que foi da ciclana? Não sei. Mas o sinal ficou verde, o carro andou, e tudo foi junto.

* Foto Lisboa, Portugal

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Mal senso

Dia desses me vi irritada com uma situação, ao que uma amiga minha disse: ” falta bom senso”. Pensei comigo, não, não falta bom senso. É mal senso. Andar devagar impedindo a passagem de quem tem pressa no corredor do shopping, da Paulista, do elevador. Não parar o carro para os pedestres que estão na chuva, se protegendo com uma folha de papel sulfite, passarem. Segurar o elevador que supre um prédio inteiro para terminar o papinho casual, humilhar os colegas de trabalho porque eles erraram a grafia no slide, falar mal de qualquer pessoa evaidecendo em si qualquer característica digna de quem ganhou na loteria genética, cutucar o amigo porque duas pessoas estão se beijando, sejam elas do gênero que for. É mal senso. Colher uma flor do jardim para dois minutos depois jogar no chão, contar vantagem sobre a conquista dos outros, gritar em um restaurante, deixar a bandeja na praça de alimentação, retrair a cabeça para não ter que cumprimentar um conhecido. Mal senso. Não pensar no outro, viver em um mundo conforme regras exclusivas, atrasar duas horas para um compromisso. A vida perde conformidade, mas anda: de muletas, mãos atadas, atrasando a si, ao outro e ao resto. E quem liga?

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Luzes da mesma vela

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Minha mãe sempre me ensinou a não brincar com fogo. Até que, ainda na escola, eu via meus amigos brincarem com as velas da capela: passavam a mão pela chama rapidamente e nada acontecia. Aquilo me fascinava, queria poder fazer a mesma coisa, mas tinha medo. Encostava a pontinha do dedo e já tirava balançando afoitamente, mesmo sem sentir dor alguma.

O fogo me deixava com medo, e a chama fazia eu me sentir protegida. O fogo me fazia acreditar que eu ia me ferir fortemente, e a chama me aquecia. Sempre chegava perto o suficiente da fogueira para me aquecer, nunca a ponto de me queimar.

Então, se fosse para dar um conselho hoje, eu te diria para ser chama. O fogo queima, machuca, traz cicatrizes. O fogo se protege mil vezes antes de proteger alguém, a quem raramente se dispõe. O fogo queima em si mesmo, ele é Agressivo, ele topa ser admirado, se mantém distante, para poucos. O fogo te mata queimado e afogado, se orgulha em machucar e se gaba por isso.

A chama te acolhe. Ela te aquece, te deixa com calor na medida certa. A chama as vezes queima, mas queima de leve, lateja um pouco e passa. Ela te olha com aquela cara de arrependida que te faz querer voltar a olhar para ela. A chama se faz memorável, de dinâmica linda e imprevisível, ela nasce dentro de você e fora. A chama te leva ao êxtase e te traz de volta, diante dela você ri e chora, você aprende que aquilo que está destinado a queimar e machucar nem sempre é assim tão ruim. A chama te faz ver o lado bom das coisas. Ela ama, ilumina e te confunde nas voltas que dá.

O fogo e a chama coexistem. São lados de uma mesma coisa. Todos nós temos os dois gumes dentro da gente, e se tiver a opção de escolher, seja chama. Acenda sua vida e brinque sempre na medida certa.

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E gira

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E então cansei das páginas de notícias. Dê-me algo que traga esperança, entregue de bandeja. Me ligue para dar uma boa notícia, me espere com um sorriso. Diga que a Fer enfim está grávida, que o Pedro pediu a Luiza em casamento, que Dona Maria ganhou na loteria, que o Ricardo conseguiu terminar de construir aquela casa que estava enrolada há sete anos. Me fale que finalmente a água chegou no sertão, que a Beatriz ficou feliz com o cartão de aniversário, me conte de alguém que faz trinta e sete anos de casamento hoje, e ainda felizes, veja bem. Me fale que o vento derrubou o varal da vizinha e todos deram risada, que a roseira que o seu João plantou no quintal vingou, me diz que tá chegando cheiro de chuva e o sol está lindo. Me fale sobre um lugar novo para ver a paisagem, do restaurante que abriu ali e dizem que a comida é sensacional. Recomende um romance que estava escondido no meio das prateleiras da megastore e, aparentemente, só você sabe dele. Mande uma estação de Vivaldi inteira, me convite para tomar um sorvete ou uma água de coco. Me conte que a doceria da Estela já é o maior sucesso, que o Mateus ganhou o concurso de matemática. Me conte das suas alegrias. Me provoque algo além de ter que me conformar com o que não está ao meu alcance, me mate de rir, me emocione até eu chorar, me faça sentir. Me dê algo de felicidade, antes do mundo girar.

* Foto por Malu Lima, em Madri, Espanha

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Força da gente

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Me afundei na poltrona, me perguntaram da minha última viagem. Respondi que foi boa, mas. No meio do caminho tinha um ” mas ” que eu não conseguia tirar da cabeça. Viajar a qualquer lugar sempre me faz sentir que dali levei algum aprendizado, coisas boas, sim, mas viagem que é viagem também tem perrengue. Não de um jeito ruim, é como aquela dor gostosa que ninguém entende, só você. A dor que te dá satisfação por ter superado algum obstáculo interno o qual sabe-se lá quando você traçou. Foi bem assim, já exausta de caminhar indefinidamente pelas trilhas peruanas, subir não sei quantos degraus, não parecia estar perto de chegar a algum lugar. E então, alcançamos um mirante de tirar o fôlego, tipo de coisa indescritível. Sentimos alguém atrás de nós, ao que foi constatado quando nos viramos e abaixamos o rosto. Cinco ou seis anos de idade? Nunca sei dizer, algo entre isso. Em uma breve atitude, estendeu a mão com uma miniatura de estátua local. Questionamos o que era. Ele respondeu em um espanhol também breve: queria vendê-lo por quinze soles. Tínhamos vinte, ele não tinha troco, não vendera nada no dia. Deixasse para lá, não precisava de troco, guardamos a peça. Olhei para ele e senti o coração doer. Era um menino, por Deus. Sujo, desamparado, aparentemente sozinho. Lembro de morder o lábio aflita, e não aguentei. Perguntei se o moço que estava por perto era seu pai, ao que ele disse que era um Senhor, mas não seu pai. Então questionei onde estavam os pais, e ele me disse que não por ali, estava trabalhando porque a mãe estava doente. Então a viagem foi boa, mas. O que eu levei dela, dessa vez? Ele. O olhar e a força. Quase me matei para subir o que ele sobe todos os dias. Algumas pessoas admiram minhas conquistas, porque então ninguém presta atenção nas dele? Ele faz aquilo que me causou dispneia intensa diariamente, ele foi mais forte. A vida não admirou as conquistas dele, chega em casa com vinte soles e a mãe doente, ele foi mais forte. Estudei vinte e dois anos para escrever isso, ele trabalha o dia todo em um sol desumano e fugindo dos guardas, ele foi mais forte. Eu tenho vinte e quatro, já tive mais de cinco refeições hoje, estou confortavelmente sentada na frente de um computador, eu reclamo. Ele foi mais forte. Ele é mais forte. E para a grande maioria das pessoas ali, o mais forte é também o invisível.
Longe dos clichês, não vou dizer que aprendi a valorizar mais a minha vida com isso. Eu sofro em lembrar dessa cena, me sinto fraca e impotente.
Mas aprendi com ele algo sobre olhar adiante e ver perspectivas, superar qualquer injustiça com o olhar. Aprendi que sem tentar ele não teria nem os vinte soles, e soube nomear ele como mais um dos Anjos que um dia pousaram ao meu lado.
Me confortou mais que o mirante, mais que a paisagem, mais que ele mesmo. Algumas pessoas tem disso, elas não só te ensinam, elas te inspiram algo que vem de dentro e te torna maior. Então, tenha em mente: força também se aprende apesar de “mas”, males e outros pesares.

(FOTO POR MALU LIMA EM SACSAYHUAMAN, PERU)

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O amor da sua vidai

Amor da vida é aquele que está com você esperando o starbucks abrir para comprar cinnamon rolls em um domingo de manhã qualquer, porque deu vontade. É quem está ali enquanto você estuda, lava roupa, cozinha, queima a panela de novo e acaba indo comer qualquer coisa bem rápida fora. Amor da vida é o amor que vai ali na floricultura com você escolher um arranjo para colocar na mesa porque você acha que o ambiente está sem graça, e te ajuda a desabar os males do mundo dançando em qualquer lugar do apartamento. Ele vai com você na feira assim que você decidiu: o pimentão do mercado não tá legal para o jantar de quinta feira. Também está com você no jantar, e nas vezes que você saiu de casa às quatro da manhã para comprar chocolate ou qualquer outra coisa que sanasse sua depressão eminente. O amor da vida esteve do seu lado no seu primeiro porre, às vezes tentando te parar e outras te oferecendo uma taça a mais de vinho. Ele sempre acha que você merece: um momento de descanso, uma vitória, uma conquista, um ombro amigo, uma solidão. Lá estava ele, no dia em que você largou do primeiro amor e chorou as Cataratas do iguaçu em uma tarde. Continuou lá em todos os dias depois disso nos quais você oscilava sono, fome incoerscível e períodos longos de inanição e recusa para o mundo. Todas as vezes nas quais você gritou para o mundo te deixar sozinho, sentou no canto do banheiro e enfiou a cabeça entre os joelhos para chorar: tava bem ali.
O amor da sua vida te fez respirar fundo e repetiu para você que tudo ia dar certo, mas muitas vezes te fez ter medo de dar errado. Ele te faz passar creme no rosto, se arrumar, tomar banho todos os dias. Sabe dos seus momentos mais vergonhosos, até daquela vez que fez xixi na calça de tanto rir da piada do seu amigo no telefone porque não deu tempo de chegar ao banheiro.
Ele tem ciencia dos pequenos problemas e obstáculos do seu organismo, e tenta superá-los, embora muitas vezes sem êxito. Sabe a cor da sua calcinha ou da sua cueca, sabe decor a ordem do seu guarda roupa, onde você guarda seu liquidificador. Topou fazer aquela trilha maluca com você, e estava lá quando você decidiu que o melhor era dirigir quilômetros, sem chegar a lugar algum, só porque estava a fim. Conhece de cabeça a letra de todas suas bandas favoritas, e se lembra que você amava aquela música mas tinha esquecido dela até o momento que tocou assim, do nada, na rádio. Esperou com você sua amiga ir ao banheiro por horas, e te ajudou a levar ela para casa depois de descobrir que ela tinha dormido em alguma cabine.
Aonde eu quero chegar? Que antes de amar qualquer um a ponto de intitular como um grande amor, é necessário levar em conta tudo o que você já passou com o amor da sua vida. Não se abandona o amor da vida por pessoa alguma no mundo. Porque se o abandonar, nada vai mudar o fato de que todos os dias, do nascimento a sua morte, você ter que dormir e acordar com ele diariamente. Você ter que vê-lo no espelho todo dia de manhã, e lidar com o reflexo dele na sua sombra. Então, ame. Celebre o amor. Ame o suficiente para não precisar amar a mais, mas escolher amar a mais.

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Não era para ser

Alguém me disse que viu uma ferida no meu coração. Falou também que eu não me afetasse, que o que não foi, não era para ser. Calculemos, então, quantas vezes ouvimos isso na vida? Não se preocupe, não era para ser. E de repente, o rosto que se vê todos os dias, em todos os lugares, não era para ser. A mão a que se apega, o abraço que acolhe, não era para ser. As palavras de conforto, o choro calado, o esperneado, o companheirismo, o silêncio mútuo, a vida compartilhada, nada disso era para ser. Sabe aquilo a que você passou tempos acostumado? Não era para ser também. Nem as mensagens de bom dia, nem as brigas. Sabe o motivo pelo qual algumas vezes você levantou a cabeça e decidiu que valia a pena continuar dali, ou mesmo recomeçar? Não era para ser.
Não era para ser a brincadeira a dois, não era para ser amizade, não era para ter contato, não era para ser a pessoa na qual você pensa todo Santo dia, e nos não santos, nem aquele que você deixou ir por uma bobeira qualquer. Nem aquele futuro que você imaginou e mudou de ordem e cores por duzentas e uma vezes. Não era para ser tudo que, agora, te impede de continuar. Então, qual atrevimento de alguém dizer o que não era para ser?
Hoje eu entendo. E foi? Não foi. Era para ser sim. Mas nada que te impede de andar, de prosseguir, crescer, mudar, era para continuar. Nada que mudou a ponto de ser irreconhecível e perder todo sentido deve perdurar. As coisas são findáveis, friáveis e muitas vezes somos nós quem definimos o limítrofe e a exclusão. A vida cobra da gente não só vírgulas e reticências, que adoramos colocar. Ela cobra pontos, ela cobra padrões definitivos, ela nos implora auto proteção e auto piedade quando não temos discernimento para isso. Nos grita a excitar, nos incita a continuar. Então, se seu coração está marcado, não tarda. Não se apegue às perspectivas do passado, elas já foram, são efêmeras e mudaram. Crie seus novos vislumbres, monte um novo reflexo, transforme seu horizonte. Era pra ser. Podia ter sido. Mas não é para ser. Decida o que você quer de novo, e de novo, e quantas vezes forem necessárias. Quando a vida nos tira um pedaço, é para colocar outro no lugar, e em algum momento você vai ter certeza que aquela partezinha você não quer tirar de você. Então, é.

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