Arquivo do mês: março 2012

Poluição autoauditiva

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Zum, zum, zum. Porque agora insistir no retrocesso? Quero dizer, obviamente não é uma boa ideia os oitenta quilômetros por hora em todo um percurso. Em todas as horas. Sabe que há muito aprendi sobre certas tendências de decisões, e pensamentos, e resoluções de vida. Essa tendência consiste no fato de que segredos mórbidos de nossa consciência ficam a nossa mercê em breves espaços em que não nos resta mais opção alguma do que sentar e esperar. Muitas vezes nem sentar. Inevitavelmente, somos limitados a uma margem reacional restrita, eu diria. Ou conversamos com o estranho ou não estranho ao nosso lado, ou viramos ao lado e dormimos, ou ficamos em pé, socializamos, todas essas opções mais complicadas e difíceis do que bolar um drama pessoal enovelado, juntar os joelhos e pensar na vida. Essa  é a grande essência das viagens de ônibus e andares e mais andares no elevador. Mas aqui viemos a falar dos ônibus, afinal. Os ônibus cheios daquele ar de cumplicidade, de todos que compadecem com determinada situação, a qual, de costume, representa o infortunado que dá a ser o sem noção da viagem. O infortunado ronca, fala alto, fala demais, esporadicamente vomita e, quem sabe, elimina certo teor de flatulência. Mal sabe ele que é o pivô do entendimento e união social e alheia. E se soubesse, ficaria feliz, pois. Afinal, qual a brecha de tamanha ironia em um país no qual as pessoas não se unem nem para reclamar com o padeiro do preço do pão? Embora nem saiba mais se esse é mesmo um exemplo cabível, já que a padaria agora também segue protocolos burocráticos da balança. A padaria, o governo, as mulheres, os homens, a mídia… A epidemiologia da balança. O que há? O que há é que o afortunado, por um acaso, segue o seu destino fidedignamente, leia-se, por favor, não espere uma viagem de ônibus completamente tranquila. Não vá sem seu espírito de socialização. Ainda que nos elevadores, há um breve período, tão breve que complica nossos primeiros passos do processo, mas aonde eu quero chegar com isso? Ao primeiro passo. Acontece que o determinado ser humano, escolhido a dedo por sua consciência defasada, descompilada, incoerente ou ingênua, gera na população em volta alguma das opções que seguem, mais de uma ou todas, o que incluí vontade eminente de riso, contenção de risadas frenéticas, ou elas propriamente ditas, caras feias, e, acima de tudo, os benditos ou malditos olhares de cumplicidade. Aos que esperam de uma viagem de ônibus apenas uma viagem de ônibus, é a eles que se deve culpar. Entendeu isso? Pois trata-se de olhares destinados a pessoas não necessariamente do mesmo sexo, mas comumente da mesma idade, não sendo também esse um critério obrigatório, pois na ausência dele, qualquer critério torna-se válido. Sim, a bem entender, as pessoas se olham. Se solidarizam. Compartilham sua vergonha alheia, seu olhar constrangedor, sua infelicidade e infortúnio de pobrezinho companheiro de viagem, em geral traduzido por um sorriso de canto. E da infelicidade, torna-se história para contar. O exército geracional se forma. Isso quando não se formam os exércitos geracionais. As panelas do ônibus. Uma vez formadas, a viagem torna-se bela, rica, mas o sono é perdido. Perde-se o pudor, a vergonha, e atingi-se o pior modo de intimidade: o instantâneo. E o capitalismo deveria se envergonhar, já que essa rede de fast-intimity é bem mais antiga que qualquer ideia de fast-food. Já devia-se prever que não renderia bons frutos, afinal. Os celulares começam a tocar, as pessoas começam a rir e falar alto. No celular. Os toques se misturam, e após o fim de uma ligação na primeira cadeira, já começa outra na vigésima, e isso estimula o passageiro da vigésima quarta a fazer uma ligação, por estar se sentindo sozinho, e o outro da vigésima nona a enviar uma SMS sem, no entanto, tirar os ruídos das teclas. A comadre que ganhou o celular do filho ontem não sabe muito bem como mexer no tal aparelho, e acredita fielmente, botando uma fé descomunal, na incapacidade das redes telefônicas, que afinal, não é tão falsa assim, pressionando suas cordas vocais rumo ao insucesso. Ah, e não esquecendo é claro, se uma cláusula que se faz especial e fundamental, e que vem a tona em certo rumo, que é a panela da tosse. Sabe-se lá porque, as pessoas de início tem um sentimento de pudor e vergonha estranho, bastante atípico. Têm vergonha de tossir. Sim, de tossir. Então, quando o coitado já está que não se aguenta de tanto segurar a tosse e desata a tossir, o outro acolá rapidamente aproveita a deixa, gerando o dominó e a famosa panela da tosse. A panela da tosse. A panela dos fones de ouvido que não parecem fones de ouvido. Das músicas altas. Dos oitenta quilômetros por hora. Oitenta em uma hora. Cinco horas. Oitenta. Fecho os olhos, coloco óculos escuros. Minha cumplicidade é exclusiva a mim, e a poluição sonora do ambiente. Saudade que vem dos velhos tempos em que as pessoas dormiam nas viagens de ônibus, e que o infortunado era só o infortunado, e não um único ser no meio de tantos outros sem a tal da sorte.

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E a solidão, que há?

E a solidão, que há? Quando bate a porta, deve logo adentrar. Pois não se sente solidão quando se sabe que todos a sua volta estão disponíveis para rompê-la. E então, quando por alguma causa, supérfula ou não, todos somem e se vê sozinho…e se encontra sozinho, sem respostas à batidas inúteis. Essa sim é a ideia correta de solidão.

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Dom?

Existem o que escrevem por serem contadores de histórias e os que gostam puramente da arte de escrever, da linguagem. Por fim, os imensuráveis que, por um acaso, ou não, tem ambos os dons.

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E aquele Sábado que eu nunca vou esquecer…

Ela já dizia que era só esperar para ver o Sábado. E qual sábado não teve sol? Qual sábado haveria de não ter ainda que um raínho, miudinho, que seja, de sol? Daquela luz amarela que povoa a alma? Ainda teimava em ensinar, na frente daquele portão em que viveu por meia e toda a vida, por meio e, em partes, por inteiro, que o sol e o sábado alegravam a alma. E como uma alma poderia deixar dois fatores tão interdependentes? Pois o sol, determinava ela, precisava do sábado para viver, e o Sábado só era Sábado pelo sol. Então, desde criança começo a reparar que não há Sábado sem sol. E aí, a vida passa, em trilhos de montanha russa. E aí, ela leva consigo tudo, tudo, tudo mesmo. E por fim, ela deixa as memórias em um fundo hipocampal suficiente para um sofrimento nosso, e alheio, e feliz. Cheio de posse. Ou não. Coloca diante dos nossos olhos aquela grande mão que agarra, que puxa para baixo contra um empuxo atípico, que é para cima. A mão que envolve uma capa preta, cintilante no mistério do que vem em seguida. E então ela jura para Deus baixinho, faz promessas e implora por mais, por um festival de células, abundantes. E mais uma vez, por ter demais, o homem peca com o orgânico do sangue, com os extremos da vida. Com um dos extremos da vida, ele paga o pecado, e paga o que plantou. Não quero festival não, meu Deus. Não quero tantas células assim, ainda que o resto venha por terra e seja enterrado. Eu não pedi tantas células. Eu não pedi dinheiro. Eu não pedi amor. Mas eu também não pedi vida. Não pedi aos sussurros para viver. Não agradeci por viver. Não me dei conta de quem era ela, que me ensinava do Sábado. Que me ensinava a ter paixão por tudo que não colocavam fé. Me ensinava a seguir minha intuição e o que eu queria. Me apoiava com os mesmos sonhos volúveis e tão lindos que eu acreditava. E aí me fizeram deixar para lá, deixar o valor, deixar de ligar, deixar de ir, deixar de seguir, deixar de embelezar. E me fizeram acreditar que era infantil, que não valia a pena, que não daria em nada. Pois assim não acreditei, não dei valor, não segui minha hipocrisia louca e seca. Morri de sede em um poço que parecia tão fundo, o qual era por demais superficial. Essa é a hora de enfiar a cabeça na água e morrer afogada? E me diz agora, essa é a hora de sufocar a alma com a culpa que a água mais fervente não pode fazer acabar? Com a dor que a mais potente erva nem ao menos consegue aliviar? Com a consciência de que uma vida passou, e eu nem me dispus a parar para vê-la passar? E quem foi que me convenceu de que essa vida era ignorante a tempo e consistente em termos, de não valer a pena? Embora quando passe, e quando se vai…Quando desfila para o precipício cego que vai aos céus. Te falo conselhos, te canto amigos, te digo, dê valor a quem está vivo. Aquém da vida não se demonstrou o valor, e quem disse que a partir de então qualquer oração vá mesmo valer tão a pena? E quem disse que além de Deus alguém lhe deve perdão incondicional? Pois bem, o perdão, as suas desculpas, valem para si? Eis que só valorizam tamanha inteligência, ingenuidade e doçura. Grande gratidão, simplicidade, alegria. Tal energia boa e contagiante. Eis que só sente falta e valoriza. Que só, e só e é pouco. Quando se vai, de uma vez por todas. Quando se vai e leva uma beleza de perucas, e se vai linda, mesmo diante da moléstia mais deplorável. E sem pedir esmolas ou migalhas. Sem adquirir piedade dos humanos desvalorizados. A conclusão a que chego é que o valor vem com a morte. Valor pós-mortem. Assim não, obrigada, não, tudo bem, agradecida, fique tranquila, estou em paz, não, estou bem. Nego. Formalmente ou não. Pois pouco me importa esse valor vazio, já que da morte levarei o momento e todo valor da vida. E de todos que um dia, por um breve momento, forem ou foram meus, de dia, de noite, de viver. De compartilhar. De ligar. A espontaneidade vai com tempo, e, minha querida, a sua não foi. Essa é sua maior conquista. E minha maior percepção de você. De resto, inevitavelmente, em algum momento, ela se explicita diante dos nossos olhos e faz algumas fichas caírem de vez. E fica apenas mais uma inspiração de como se viver com a maior intensidade possível, de que vale a pena viver com gosto e fazer as pazes com o próprio destino. Vai com Deus.

*Dedicado à Vera De Falco, com meus sentimentos, fé e orações sinceras. Esse último Sábado não teve sol. Tenho certeza que no próximo, teremos muito mais no céu para iluminar a todos nós, de todos os Sábados, para sempre. Obrigada por tudo. Principalmente por ter sido você, tão brilhantemente, nessa minha vida.

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