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Cachimbo de ouro

Deu uma longa tragada no velho cachimbo marrom. E velho. O cachimbo era velho e velho ele estava. Digo, muito gasto pelos anos. Deveras, muito gasto. Sua vida já assumia aqueles tons marrons e verdes musgos. Sua cadeira já era daquela madeira escura e o estofado era do nude mais avermelhado. Ele cruzava as pernas e inclinava-se para frente, apoiando o cotovelo direito pesadamente sobre o joelho esquerdo, já tão fraco. Olhava para cima. Mas a cabeça continuava fixa. A cabeça não ousava mexer. O que se movia era unicamente o olhar. Não digo puramente o olhar porque o olhar não tinha nada de puro. Era olhar pesado, eram olhos cerradíssimos, era até doloroso e de dor estava até. Mas não puro. Os olhos se moviam até com certa agilidade perto do ágil que atingia nos últimos anos. Fungou. Tragou novamente. Pensou no velho papagaio que estava no quintal, pensou em ir até a cadeira de balanço para se distrair, mas sentiu preguiça. Sentiu fadiga. Espreguiçou-se ao seu modo, muito lentamente, enquanto pensava nas histórias de Natal que ainda recordava da infância. Pensou na vitrola de verniz vermelho e bocais dourados, pensou no disco de vinil, quão imponente era e teve saudade de ouvir música. A música que faz chorar, que desperta sentimento. Não que ele chorasse, pois era duro. Muito duro. Mas pensou por pensar, divagou, olhou para lareira, ouviu a música de um fogo fictício que atiçava sua alma para frente, para passos e caminhadas, para sons e para um silêncio duro e profundo. Duro e profundo, e essas palavras ecoavam em sua mente. Duro e profundo como ele. Tragou novamente. Sentiu o coração queimar. Levantou-se. Fez a madeira do chão estalar, fez as janelas de vidro serem vistas, fez as tantas árvores lá de fora serem apreciadas e chegou na cozinha. E olhou para os armários embutidos em branco. E olhou a ordem estabelecida. A toalha florida e limpa. O cinzeiro de prata com um cavalo estampado. O vaso de argila com flores artificiais fincadas. Os talheres de madeira escura e pregos dourados. O telefone a rodar. Olhou para aquela mesa. E olhou. E fez ser visto o jarro. E olhou para a pia. Fez ser visto o filtro de barro. Olhou para a mesa. E viu. Viu o cesto de pão, aquele que cabia apenas um único pão. Aquele que estava coberto com um guardanapo de papel todo pintado de frutas, de banana, de maçã e de pêra. Viu o cesto. Vazio. E sentou no banco de madeira de quatro pés, todo riscado pelo tempo e pelas mãos de alheios amigos, conhecidos, inimagináveis. Riscado por histórias. Riscado por amor.
Riscado pelo amor. Soltou um ruído baixo e um tanto quanto inconsolável. Repousou seu chachimbo no cinzeiro limpo e soube que o limpo logo estaria sujo para sempre. Olhou o cesto. E chorou.

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