O que você não trouxe

ImagemHoje eu saí cedo e cheguei tarde. Não tinha água em casa. Não tem água em casa. Era Dezembro e o clima era ameno em Lisboa, apesar do Dezembro. É maio e o clima está ameno onde estou, apesar de você. No Dezembro de Lisboa me chamou a atenção a Catedral da Sé, que estava vazia. O movimento era mínimo e um fotógrafo registrava figuras de pedintes. Um velho passou por mim determinado. Com certeza tomara ali, entre uma prece e outra, grande decisão. E eu? Eu entrei me escondendo na sombra e sem saber direito o porquê. É como se ali todos devessem se esconder na sombra, ou da sombra. Digo isso porque logo a frente uma música dócil tocava. Era som de teclas e era um piano. Era também de um toque doce e delicado. Uma pianista tocava de olhos fechados, nenhuma música em especial. Mas estava ali, na sombra, se fazendo luz. Estava perpetuando um silêncio sagrado com música. Você podia escolher entre ela estar ali ou não, vê-la ou não, escutá-la ou não. Sim, ouvia, mas a luz que emanava de sua arte dava lugar aos nossos pensamentos mais profundos. Devia ser por isso que aquele velhinho saiu de lá tão decidido. Fitando a cena e ouvindo a música, dei lugar ao meu coração e me senti tomada de paz. Fiz uma oração. Saí emocionada, embora menos decidida que o homem. E hoje? Bem, hoje estou aqui. O clima está ameno. As músicas são inespecíficas. A paz reina, já que você está, mas não está. Hoje estou na sombra, mais na luz baixa. Em casa não tenho água e dessa vez não tenho você para me trazer uma garrafa de água. Ainda da pouca luz que resta fiz certas constatações e descobri que nem sempre da penumbra tiramos decisões, porque certas decisões a vida toma pela gente. Mas podemos tirar a paz necessária para enxergar nossa deixa de partir para outra e para decisões ao nosso alcance. Se não tivesse tão cansada e saísse andando, meu passo seria decidido, como o daquele dia em Portugal. Porque você não está aqui e essa decisão não foi minha nem sua. Nem da água que acabou. Foi da vida que deixou a garrafa vazia. De resto, ela pode me encher de saudade, mas  sobre a água, eu já posso ir saindo para comprar.

* Foto: Por Malu Lima, em São josé do Rio Preto

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